segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Porque...

... os tempos são difíceis e a mente por vezes apatiza.

Porque a vida nem sempre é o que esperamos dela e nos impõe desafios impossíveis de contornar.

Porque as palavras não podem, nunca, arrancar-se à má fila num contexto de desmotivação, fragilidade e apatia sob o risco de se tornarem banais.

Estamos de volta! Até quando? Essa é uma das respostas que se enquadram na verdade absoluta do 'nunca' ou 'sempre'.

No entanto, algo garantimos a nós mesmas: estamos cá sempre - ausentes ou não - com ou sem palavras e, sem dúvida, enquanto a vontade nos permitir.

Talvez, dado o contexto actual, abordemos outras questões que nos provocam alguma sofreguidão interior.

Afinal, as reticências não são um princípio nem um fim mas sim o que existe entre eles.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Terabytes de bílis...

Estou tão chateada, mas tão chateada da minha vida que, pela primeira vez, desde há bastante tempo, senti necessidade de escrever no nosso reduto. Afinal, talvez seja essa uma das funcionalidades de um blogue com esta vertente: transpor estados de espírito.

E foi exactamente o estado de espírito verborreico em que me encontro, aliado à necessidade premente de aliviar a minha bílis, que me trouxe aqui.

Dizem que tenho muito mau feitio. Acredito que sim, pela forma como muitas vezes me expresso, independentemente das minhas convicções. Uma coisa não tem a ver com outra. Almejo o dia em que, com serenidade, serei capaz de enfrentar situações que hoje fazem com que entre em órbita só pelo simples facto de que as minhas veias começam a latejar com tal intensidade que eram capazes de dar impulso a um foguetão da Nasa para uma qualquer expedição à lua.

Tenho um gravíssimo problema de tolerância para com pessoas que, além de prepotentes, autoritárias e altamente presunçosas, são exactamente o oposto: frustradas, insignificantes e estúpidas que nem uma porta porque nem percebem que, naturalmente, não são donos do saber e, sobretudo, dos outros.

Não sou perita – nem de perto nem de longe – em informática. Considero-me, apenas e só, uma curiosa. Gosto de procurar aprender e investigo muito – só isso. Reconheço as minhas limitações e por vezes a minha impaciência. Mas, para grande desilusão minha e não generalizando e reportando-me apenas à minha experiência, constato que a maioria dos informáticos com quem me tenho cruzado profissionalmente não passam, na sua maioria, de uns incompetentes que mais parecem toupeiras no túnel do Marquês a ver se descobrem qual é a entrada e a saída quando, no fundo, são várias ou ambas. Ou seja, é gente que vê as coisas apenas e só de uma única perspectiva: a sua. O que eles dizem é palavra de ordem porque eles é que sabem! É por isso que tanto admiro os chamados ‘hackers’ ou ‘piratas informáticos’ porque esses, na sua verdadeira vertente – e também não generalizando – são auto-didactas e, excepção à regra, com um espírito de altruísmo, humildade e perseverança inigualáveis. Esses oferecem-nos ajuda. Dão-nos instrumentos que nos ajudam a sermos mais autónomos e não o contrário. O mesmo se poderá dizer dos ‘verdadeiros instruídos’. É que a ‘malta’ ainda não percebeu que há uma diferença abissal entre HABILITAÇÕES e COMPETÊNCIAS. Para além do senso comum e dos princípios de que devemos pautar-nos. Artesãos: são aqueles que sabem e partilham o seu saber. Os que tratam do seu ofício com a minuciosidade e preciosidade que este lhes merece e ainda o passam ao próximo com a mesma generosidade com que o receberam.

Generalizando mas restringindo-me apenas aos que vestem esta (badalhoca) camisola, continuamos a ter o mundo lotado de parasitas que se alimentam das potencialidades e boa fé dos outros (os artesãos), para fomentarem o seu empobrecido ego.

Ó pategos: um dia destes encontram um ‘insignificante ser’ que vos dá uma ‘coça’ tal, que vão pensar que só vieram ao mundo nesse momento. Aí, não haverá ‘terabytes’ que vos valha…

terça-feira, 26 de abril de 2011

Os gatos...

Os gatos

Gosto do gato
do gato gosto
que é animal irracional
de fino gosto.

Tem tanto trato
tanta finura
que mata o rato
com requintes de ternura.

Gosto do gato
do gato gosto
que é animal irracional
de fino gosto.

Lembro que um dia na sacada do meu prédio
havia um gato matulão com malapata
amava ele com paixão mas sem remédio
arisca gata porque aristocrata.

Fazia versos de sardinha prateada
ramos de espinhas com cheirinho a maresia
e a gata persa com esmeraldas na mirada
nunca ligava ao carapau nem à poesia.

Gato vadio animal da minha vida
gato com cio confessando-se ao luar
gato telhado esfomeado e sem guarida
e a gata persa que só come caviar.

Gatos de rua eriçados de verdade
lambendo os restos que há no fundo do desgosto
gato Cesário dos poemas da cidade
com olhos verdes que é a cor de que eu mais gosto.


José Carlos Ary dos Santos (1937 – 1984)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

... afasta de mim esse Cálice...


Michael Ball
(Andrew Lloyd Webber/Tim Rice)

I only want to say
If there is a way
Take this cup away from me
For I don't want to taste its poison
Feel it burn me,
I have changed I'm not as sure
As when we started
Then I was inspired
Now I'm sad and tired
Listen surely I've exceeded
Expectations
Tried for three years
Seems like thirty
Could you ask as much
From any other man?

But if I die
See the saga through
And do the things you ask of me
Let them hate me, hit me, hurt me
Nail me to their tree
I'd want to know
I'd want to know my God
I'd want to know
I'd want to know my God
I'd want to see
I'd want to see my God
I'd want to see
I'd want to see my God
Why I should die
Would I be more noticed
Than I ever was before?
Would the things I've said and done
Matter any more?
I'd have to know
I'd have to know my Lord
I'd have to know
I'd have to know my Lord
I'd have to see
I'd have to see my Lord
I'd have to see
I'd have to see my Lord

If I die what will be my reward?
If I die what will be my reward?
I'd have to know
I'd have to know my Lord
I'd have to know
I'd have to know my Lord

Why, why should I die?
Oh, why should I die?
Can you show me now
That I would not be killed in vain?
Show me just a little
Of your omnipresent brain
Show me there's a reason
For your wanting me to die
You're far too keen on where and how
But not so hot on why
Alright I'll die!
Just watch me die!
See how, see how I die!
Oh, just watch me die!

Then I was inspired
Now I'm sad and tired
After all I've tried for three years
Seems like ninety
Why then am I scared
To finish what I started
What you started
I didn't start it
God thy will is hard
But you hold every card
I will drink your cup of poison
Nail me to your cross and break me
Bleed me, beat me
Kill me, take me now
Before I change my mind

domingo, 13 de março de 2011

Interlúdio...

Porque respirar é preciso para encontrarmos o nosso caminho...

Respirar o ar, a vida, o amor e, essencialmente, RESPIRARMO-NOS!



Midge Ure

With every waking breath I breathe
I see what life has dealt to me
With every sadness I deny
I feel a chance inside me die

Give me a taste of something new
To touch to hold to pull me through
Send me a guiding light that shines
Across this darkened life of mine

Breathe some soul in me
Breathe your gift of love to me
Breathe life to lay 'fore me
Breathe to make me breathe

For every man who built a home
A paper promise for his own
He fights against an open flow
Of lies and failures, we all know

To those who have and who have not
How can you live with what you've got?
Give me a touch of something sure
I could be happy evermore

Breathe some soul in me
Breathe your gift of love to me
Breathe life to lay 'fore me
To see to make me breathe

Breathe your honesty
Breathe your innocence to me
Breathe your word and set me free
Breathe to make me breathe

This life prepares the strangest things
The dreams we dream of what life brings
The highest highs can turn around
To sow love's seeds on stony ground

Breathe
Breathe

Breathe some soul in me
Breathe your gift of love to me
Breathe life to lay 'fore me
To see to make me breathe

Breathe your honesty
Breathe your innocence to me
Breathe your word and set me free
Breathe to make me breathe


quarta-feira, 2 de março de 2011

Memórias...

De algumas das coisas que me orgulho, esta é das mais significantes: o percurso que tenho feito contigo, Vírgula.

Penso que do tanto que temos alcançado uma das coisas mais preciosas é a capacidade que aprendemos de nos VERMOS uma à outra. Seja com o olhar, com o coração ou com os ouvidos, o respeito e cumplicidade crescentes que têm pautado a nossa amizade é algo que me faz pensar no quão preciosas podem ser, de facto, as relações humanas quando, entre outras coisas, a humildade e a generosidade são recíprocas.

Não pretendendo ser este, um espaço de 'troca de galhardetes', há alturas em que não podemos deixar de salientar a existência de alguém que nos é tão próximo e querido. Hoje, esse alguém é, uma vez mais, tu!

Não conheço pessoa mais doce, afável, sensata, carismática e generosa do que tu. Orgulho-me disso: de te ter na minha vida e, acima de tudo, de poder traçar um percurso contigo. A mão que pediste para não te largar responde-te dizendo: não me largues também!

Deixo-te, como prometi, o meu humilde presente: um pequeno apanhado de algumas das nossas mais significativas memórias do mau, do bom e - claro! - do muito bom, na expectativa de ainda vivermos o excelente.

Obrigada, SEMPRE, por existires!



Presente sempre presente...

Eu tenho uma Amiga sempre presente, no presente e de presente!

A nossa querida Vírgula está de parabéns. Faz hoje anos que a vida nos concedeu o presente da sua existência.

O meu jogo de palavras não é, como perceberão, despropositado. Tem, como intuito, abrir o espaço ao que se segue.

Há uns tempos, a Vírgula perguntou-me se, no dia de anos dela, podíamos colocar este vídeo. Não temos trabalhado no blogue devido às mais diversas vicissitudes. No entanto, não esqueci e fica, aqui,o meu primeiro presente.

O tempo tem sido precioso para o nosso percurso individual mas também recíproco. De facto, nada melhor do que estas palavras e esta voz para o celebrar.

Obrigada por existires! O tempo é quando...



Poética

Vinicius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Oração ao Tempo

Maria Bethania

Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definitivo
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ainda a propósito do Broncas...

No Verão fui almoçar a casa da minha amiga Paula. Vive num segundo andar de um prédio que, visto do exterior, parece uma vivenda. Não tem elevador.

Ouvimo-la:

- Vai, Broncas! É o Ponto de Interrogação e a Vírgula. Vai ter com elas, vai!

Correu escada abaixo. Estávamos no primeiro lanço a rir com a sofreguidão dele, que mais parecia um cachorrinho desvairado do que um cão apessoado de 11 anos.

Já não me via há uns tempos. Quando ia a descer, olhou-me e estacou. Devagarinho começou a andar para trás e desapareceu na esquina do corrimão.

Incentivámo-lo.

Primeiro, a orelha e o olho direitos. Pouco a pouco o focinho foi surgindo, espreitando e estudando a situação. Aparecia. Desaparecia. As gargalhadas e ”Broncas, vem cá…” estalavam o silêncio.

Desceu os primeiros degraus mas, numa decisão impetuosa, virou o rabo e zarpou até casa. Voltou e o cerimonial repetiu-se. De repente desceu e dirigiu-se ao Ponto de Interrogação. Se ao menos eu fosse uma bola colorida, grande, pequena ou assim-assim, cumprimentar-me-ia e atirar-se-ia para cima de mim com toda a alegria do universo.

Enchi-o de festas e de palavras tontas e a coisa acalmou.

A casa da Paula é um amor mas pequenina. Para qualquer lado que nos virássemos estampávamo-nos com o príncipe, que queria atenção e brincadeira.

Hora do almoço. Um desastre maravilhoso – as duas manas, “mães” cuidadosas, diziam-lhe determinadamente: “Não, Broncas, não te dou de comer. Isto faz-te mal.” Pelo sim, pelo não, vinha ter comigo. Das duas espetadas divinais, fui retirando, o mais imperceptivelmente que me era possível, pedaços de carne de vaca e chouriço. Deixava descair o braço e zás… uma boca rodeada de pêlo ruivo e barbichinha branca afiambrava o petisco. E, pronto, a Vírgula e o seu príncipe canídeo eram logo alvo de ralhetes. Eu punha um sorriso estúpido e pestanejava candidamente.

Um parêntesis. O Broncas era macho-macho, ou seja, nunca ficou a ladrar fininho, ou seja, a família recusou-se a tirar-lhe os tintins. Assediava a Lady, esterilizada, que o provocava com muita sabedoria, como boa fêmea que é, mas que, depressa, numa postura cheia de pedantismo, o mandava bugiar.

Muito activo sexualmente – demasiado, diria eu –, não era propriamente selectivo. Quase tudo lhe servia desde que tivesse pernas – Lady, bonecos e pessoas. Se estava a ser observado, os fervores cediam com as palavras um pouco mais duras dos donos.

De regresso ao almoço.

Na hora de arrumar a cozinha, o Broncas foi para o quarto encontrar-se com a sua ‘sobremesa’ preferida: um boneco de peluche (sempre o mesmo), com ar decadente de tanto ter sido lavado, esfregado e desinfectado. Acto rápido que nos pôs a rir, com excepção da Paula que começou a dizer mal da vida dela. Pela milionésima vez elevada ao cubo, lá tinha que ir limpar.

Escusado será dizer que não teve descendência.

No passado dia 1 de Janeiro fui jantar a casa da minha amiga Paula.

Serão combinado semanas antes do declínio do Broncas. Na quarta-feira anterior, perto das 20 horas, ele adormecera para sempre.

Parti do princípio de que o encontro ficaria sem efeito. Até disse ao Ponto…: “Vou ter que deixar passar uns tempos antes de ir a casa dos teus pais ou da tua irmã. Não me sinto com coragem para enfrentar o vazio do meu príncipe.” Insurgiu-se. Tinha trocado mails com a Paula que queria mesmo fazer o jantar connosco, numa homenagem ao Broncas, por quem brindaríamos. “Ok – respondi-lhe, emocionadamente acalentada. – Minha querida mana do meio… Não te preocupes, eu dou a ‘volta’.”

Chegámos. Os gestos e as palavras tentavam esconder a nossa ansiedade mas conhecemo-nos bem.

Antes de abrirmos a porta do prédio, olhámos uma para a outra, inspirámos e dissemos. “Bom, cá vamos nós…”.

O silêncio na escada caiu-nos em cima como nevoeiro cerrado e húmido que nos fez doer os ossos e apertar a alma. Dei-lhe a mão e, assim, subimos até ao segundo andar.

Aprendi cedo que mais vale estar calada do que dizer parvoíces mas as emoções conspiram contra nós:

- Santo Deus, nem se ouve a voz da Paula…

Fingimo-nos à vontade apenas nos primeiros momentos. Logo de seguida sentimo-nos mesmo.

A casa da Paula é um amor mas é tão grande…

Desta vez, a fadinha do lar foi o Ponto… Antes e depois do jantar, eu e a Paula continuámos sentadas, a fumar, a beber e a falar.

Conversámos sobre muitos temas. O primeiro de quatro brindes iguais foi para a ausência que sentíamos presente. Levantámos os copos e dissemos a uma só voz: “Ao Broncas…”.

Árido? Não. A energia luminosa que, decerto, esteve connosco, sabe o valor daquele ritual que durou até perto das quatro da manhã.

Tenho muitas recordações dele mas esta tem sido recorrente.

Quis uma lembrança física. Pedi ao Ponto… se me dava uma bolinha, esse objecto que o deixava atabalhoado como se fosse a melhor comida do mundo ou a cadela mais bonita da rua e que tanto o afectou. Há dois anos, numa das suas saídas, e sem que se desse por isso, engoliu uma bola. Guardou-a no estômago durante seis meses até que começou a adoecer, acabando por ser operado.

O Ponto… deu-me três: duas pequeninas e uma assim-assim. A assim-assim é de borracha mole e está toda marcada pelos dentes dele.

Pu-las na estante do meu quarto, em locais criteriosamente escolhidos, num relicário de memórias e de amores.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Broncas

Broncas. É o seu nome.

Eu sei. É um nome já de si muito sui generis, e ainda mais para um pequeno anjo intemporal de quatro patas. Um autêntico boneco de peluche com a diferença de que respira, sente e pensa.

Sim… Acredito que os cães pensam. Assim como os gatos, os cavalos, as galinhas, os golfinhos, as melgas e, entre toda a parafernália de seres vivos existentes, por vezes também o ser humano.

Eu, que tanta importância dou às palavras e aos conceitos, passei a dar um novo significado à palavra ‘Broncas’. Para mim significa doçura, inocência, pureza, generosidade, traquinice, afecto, sobrevivência e bolas… Muitas bolas! Milhões de bolas coloridas e saltitonas como no anúncio de uma marca muito conceituada e conhecida.

O Broncas é um dos seres que nos dá o imenso privilégio de sermos a sua família e de nos brindar com todas as características que descrevi e outras mais.

Um cão com o que de melhor existe em cada cão mas também em cada um de nós. O eterno namorado e protector da Lady – outro anjo que veio ao nosso encontro.

Desde que me lembro de existir, sempre tive amigos e familiares de quatro patas – como costumo designá-los. Amo profundamente todos os animais – os meus e os dos outros – e nunca chorei tanto por nada nem por ninguém como chorei pelo Putchi. Mas, apesar de ser ‘filho’ da minha irmã, creio que nunca estabeleci uma ligação tão grande como a que acredito ter com o Broncas. Na verdade, acho que ele é tão especial que todos nós temos com ele uma ligação igualmente especial. E a quem é especial também lhe é concedida essa ligação. É um verdadeiro companheiro.

Por isso, resolvi fazer-lhe aqui, hoje, a minha homenagem.

Aos olhos ‘namoradeiros’ e eternamente doces, às suas brincadeiras e rebeldias, à sua gulodice, e à sua maravilhosa e eterna existência que é sempre uma bênção.

A ti, Broncas, o eterno cão de peluche que respira, sente e pensa.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Interlúdio...

Há palavras que são tão simples mas, ao mesmo tempo, tão cheias de grandiosidade quando conjugadas, que nos esquecemos de as proferir. 'Dá-me um abraço' constitui algo de tão profundo e imenso como o próprio acto em si.

Deixamos aqui uma música que consideramos representar, magistralmente, as potencialidades de um gesto singelo mas que chega a ser milagroso.



Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada que o nada é tanto
E eu não me importo

Dá-me um abraço fica por perto
Neste aperto tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

Dá-me um abraço que me desperte
E me aperte sem me apertar
Que eu já estou perto abre os teus braços
Quando eu chegar

É nesse abraço que eu descanso
Esse espaço que me sossega
E quando possas dá-me outro abraço
Só um não chega

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Chuva sem água...

Recriação sonora genial de uma das bençãos da mãe Natureza: a chuva!



Arte com farinha

Nos tempos que correm, já vai sendo difícil encontrarmos contributos do que de melhor somos capazes de fazer a todos os níveis. Hoje deixamo-vos dois belos exemplos.

Começamos com este que, publicidade à parte, é uma súmula de desenho artístico feito na e com farinha. Desfrutem!



sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O último cigarro…

O último cigarro do dia é saboreado à janela do meu quarto.

A obstruir a linha do horizonte, vários prédios baixos e uma igreja sofrida – o terramoto de 1755 só não venceu a capela-mor, o arco do cruzeiro e parte das paredes do corpo principal.

Deito-lhe sempre um olhar carinhoso. Foi nela que me quis casar.

Monumento nacional a provar que os “80-60-80” só são medida ideal para os que não sabem ver.

Vénus, o planeta feminino, coquete e apressado, expõe-se para ser admirado.

Apenas uma ou duas estrelas. Em caso de sorte ou de boa vontade, cerca de meia dúzia.

Por vezes, a Lua ainda se encontra daquele lado. Quero-a Cheia. Fascina-me e apetece-me tocá-la.

The Man of the Moon, meio triste, meio amuado, meio amargurado, faz-me lembrar uma personagem masculina animada de Tim Burton. Observo-a até me doerem os olhos e, invariavelmente, sorrio. Deslumbrante e misteriosa.

É o meu momento de reflexão após dia de trabalho intenso, de preocupações constantes e de decisões numa área transversal a qualquer hospital.

Memórias, revisões, dúvidas, respostas ou assim-assim. Alturas há em que consigo afastar pensamentos e a tensão vai-me abandonando aos poucos. Tão mais perto do que sou. Há alguém que consiga serenar-nos mais do que nós próprios?

Embora morando em Lisboa, o local é calmo. Cheiro e alago-me de silêncio nocturno.

Já entraram e saíram tantas conversas em mim e de mim que estou esgotada delas. Não podendo libertar-me aguardo, expectante, pela hora da quietude.

Passo para a cama e para outras histórias, lidas e saboreadas. Não quero interrupções - só me descontinuam e fragmentam.

Sei que amanhã é outro dia de abismos inesperados e ruidosos.

Interlúdio...



Damien Rice

Leave me out with the waste
This is not what I do
It's the wrong kind of place
To be thinking of you

It's the wrong time
For somebody new
It's a small crime
And I got no excuse

And is that alright? Yeah
Give my gun away when it's loaded
That alright? Yeah
If you don't shoot it how am I supposed to hold it?

That alright? Yeah
Give my gun away when it's loaded
That alright? Yeah, with you?

Leave me out with the waste
This is not what I do
It's the wrong kind of place
To be cheating on you

It's the wrong time
She's pulling me through
It's a small crime
And I got no excuse

And is that alright? Yeah
To give my gun away when it's loaded
(Is that alright with you?)
Is that alright? Yeah
If you don't shoot it how am I supposed to hold it?
(Is that alright with you?)

Is that alright? Yeah
If I give my gun away when it's loaded
(Is that alright with you?)
Is that alright
Is that alright with you?

That alright? Yeah
If I give my gun away when it's loaded
(Is that alright with you?)
Is that alright? Yeah
You don't shoot it how am I supposed to hold it?
(Is that alright with you?)

Is that alright? Yeah
If I give my gun away when it's loaded
(Is that alright with you?)
Is that alright
Is that alright with you?

And is that alright? Yeah
(To give my gun away when it's loaded)
Is that alright? Yeah
(You don't shoot it how am I supposed to hold it?)

Is that alright? Yeah
(To give my gun away when it's loaded)
Is that alright? Is that alright?
Is that alright with you? No

A a A


Sem nenhum tropeço, posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo permitindo, mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode dizer-se tudo com sentido completo, como se isto fosse um mero ovo de Colombo.

Desde que se tente sem se ser inibido, pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento. Trechos difíceis resolvem-se com sinónimos. Observe-se bem: é certo que, querendo-se, esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo.

Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo desporto do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o "E" ou sem o "I" ou sem o "O" e, conforme o meu desejo exclusivo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo, sem o "P", "R" ou "F", ou o que quiser escolher. Podemos, em estilo corrente, repetir sempre um som ou mesmo escrever sem verbos.

Com o concurso de termos escolhidos, isto pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir. Porém, mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objecto escolhido, sem impedimentos. Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem o nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês. Porquê?

Cultivemos o nosso polifónico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.

Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores.

Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos.

(Desconhecemos o autor que, magistralmente, escreveu este texto sem um único 'a')

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Interlúdio...








Nota da redacção

Aos nossos (eventuais) leitores devemos uma explicação.

As Boiadeiras estão em fase de recolhimento (quase) absoluto. Voltaremos em breve, quando o tempo e a disponibilidade física e mental, nos permitirem.

Até lá, vamos tentar colocar músicas e vídeos.

Obrigada!

Aos que continuarem a persistir em ler este blogue, ainda que menos assiduamente e ao nosso ritmo, o nosso muito obrigada e até já!

sábado, 2 de outubro de 2010

Arte e Palavras Soltas



Reencontrámo-nos de modo contemporâneo. Forma remota, incorpórea, mas, por vezes, a única possível para apaziguar corações, sentimentos, prantos feitos risos, saudades encobertas.

Emails curtos, com poucas palavras, muito carinho e bastante sensualidade.

Neste longo interregno houve dois amores. Um, inexplicável, improvável e dispensável, mas profundo e desinteressado porque foi sempre esta a minha forma de amar. Outro, feliz enquanto durou, diferente, singular, adulto, completo.

Há pessoas que se nos colam pelo que são. Por mais longa a distância, o silêncio, o não saber, permanecem e carregamo-las no nosso sangue, órgãos e memória como parte de nós. A saudade deixa de doer como no passado, as interrogações desvanecem-se, as expectativas dissolvem-se, mas quando a lembrança vem, sorrimos para o vazio, o olhar pacifica-se, a alma envolve-se de líquido de ventre materno e sentimo-nos gratos, porque embora raro, há espíritos que se harmonizam e o elo, inicialmente criado e fortalecido, nunca se desfaz por mais que o caminho não tenha sido o que desejámos.

Aguardo.

Espero o movimento seguinte enquanto recebo as palavras que ninguém me disse desta forma terna, honesta e generosa.

O passado interpõe-se e recuso, por mim própria, percorrer o trilho já conhecido.

E só surge uma questão.

A aproximação final será o momento da partida?