As reticências são, na escrita, a sequência de três pontos (sinal gráfico: …) no fim, no início ou no meio de uma frase. A utilização deste género de pontuação indica um pensamento ou ideia que ficou por terminar e que transmite, por parte de quem exprime esse conteúdo, reticência, omissão de algo que podia ser escrito, mas que não o é.
sábado, 24 de julho de 2010
O som da pureza...
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Interregno
segunda-feira, 19 de julho de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Palavras ensonadas
Aconchegados, de luz apagada, prontos para dormir.
- Já sinto a tua falta só de saber que amanhã não estarás aqui comigo – disse-me, ensonado.
Beijei-lhe o braço que se estendia sob a minha cabeça. Afastou-me o cabelo e aproximou a boca da minha cara.
- Bom – acrescentou mais baixo –, mas até os siameses têm que ser separados para conseguirem sobreviver, não é?
Não, não é. Nem sempre resistem. Mas, ainda assim, deixei-me embalar e seduzir pela comparação e pelas palavras de afecto.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Pai
Fazes hoje 84 anos e estás como sempre – 1,83m de homem bonito.
Essa é uma característica que sempre me envaideceu, confesso.
Mas são os teus valores e qualidades que me assombram e encantam. Querendo o anonimato, não o conseguiste. Fisicamente sempre te impuseste, profissionalmente deste cartas. Podias ter ascendido mais, podias ser rico mas a tua integridade não o deixou. Se fosses diferente, agora, estaria de férias nas Caraíbas à tua custa. Mas agradeço-te por ter que as passar em Lisboa.
Foste, és e serás uma referência para mim, para a Ana e para toda a gente que tem conseguido ver-te.
A tua noção de justiça, de generosidade, de altruísmo, de amizade, de lealdade, de união familiar, o teu bom coração e a tua inteligência emocional transformam-te, aos meus olhos e coração, numa pessoa única.
Lembro-me de ser pequenina e de me explicares, com muita calma e carinho, a importância de pedir desculpa e de sentir o perdão; de ser bebé, fazer bolinhas com os pêlos do cobertor e enfiá-las nariz acima, a Mãe a querer levar-me para o hospital e tu a puxá-las com uma pinça; de resolveres o meu problema com o tamanho dos sapatos de corda, pondo dois dos teus lenços e, ala, que lá fomos nós e ultrapassámos toda a gente – de menina triste transformaste-me em ufana, de mão dada comigo; de me levares ao barbeiro, às escondidas, porque gostavas de me ver de cabelo curto; da tua presença e carinho quando, aos cinco anos, tive a miocardite e o teu cabelo embranqueceu em duas semanas de dor e preocupação porque te disseram que o meu final estava muito perto – deste-me um boneco, um bambi, que guardei até cair de podre; de adormecer na vossa cama e, vestido com robe bordeaux, pegares-me ao colo para me deitares. Agarrava-me a ti como um porto seguro que sempre foste. Sinto o calor e o cheiro. E as convocatórias para conversas formais, normalmente quando arranjava namorado? Punham-me apreensiva – eras mais inteligente do que eu. Sabia, de antemão, que era uma dialéctica perdida.
És um homem de liberdade. O 25 de Abril de 1974 foi uma data feliz para ti. No entanto, o momento do PREC não foi fácil. Mesmo sabendo que eras vigiado, todos os quinze dias, ao fim-de-semana, fazias um périplo pelas prisões para apoiares os teus amigos banqueiros. Este gesto valeu-te três levantamentos pormenorizados à tua vida para te sanearem. Nada a fazer. Impoluto.
Peco por defeito. Tanta coisa para contar. Dou-te apenas um pequenino conjunto de recordações. A única razão por que lamento, neste momento, não ter podido ter um filho tem a ver com o facto de não ser possível perpetuar o teu nome e os teus genes – o meu sonho é que fosse igual ao Avô. Um pouquinho menos resmungão. Mas, até isto, gerimos à nossa maneira – com picardia que acaba, muitas vezes, em risota ou em propostas tuas de pactos de não agressão.
Trazes em ti, se calhar sem o saber, toda a minha admiração, respeito, orgulho e afecto. Para sempre, num processo interminável.
Sim, porque foste tu, meu querido Pai, que me ensinaste que não existe morte nem fim.
domingo, 4 de julho de 2010
Estado de espírito...
Interlúdio...
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this the fourth, the fifth
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair
And from your lips she drew the Hallelujah
Baby I have been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you.
I've seen your flag on the marble arch
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
The holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light in every word
The holy or the broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though it all went wrong
With nothing on my tongue but Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah
terça-feira, 22 de junho de 2010
Jorge Palma
No princípio da minha vida profissional fui jornalista, durante seis anos, num vespertino.
Estava mais ligada à grande reportagem sobre assuntos sociais e culturais. Não era habitual dar contributos para a secção de espectáculos, excepto com traduções.
Um dia, o Victor, meu chefe de redacção, pediu-me para entrevistar o Jorge Palma.
Telefonei-lhe, marcámos o dia e a hora.
Devia aparecer às 10:00h. Qual!? O tempo foi passando e nada. Comecei a sentir-me irritada e até a pôr a hipótese de, quando ele chegasse, dizer que era tarde demais e que a entrevista já não seria feita.
Passava do meio-dia quando o segurança me avisou que ele ia subir.
Fui esperá-lo de garras afiadas e de cara fechada.
Vi-o subir as escadas, chegar ao pé de mim com os caracóis ainda molhados, pespegar-me dois beijos e dizer: “ai, bolas, custa-me tanto levantar de madrugada (???)”. Pegou-me no braço.
- Anda daí, vamos tomar o pequeno-almoço porque estou em jejum. Faz-me companhia.
Registei a falta do pedido de desculpas, mas, atordoada, tropecei naquela simpatia alegre e informal. E eu, que por mais vontade de comer que tivesse nunca saía da redacção, lá fui arrastada, esquecendo atrasos e azedumes.
Tagarela e cheio de humor inteligente, foi conversando e comendo.
Introduziu um tema da paixão dele na altura – a astrologia.
- Vamos tentar descobrir o signo um do outro – disse-me.
- Ah, esperto, assim não vale. Não percebo nada disso.
- És Leão!
Comecei a gostar.
- Não! Sou Peixes! – respondi com expressão irónica.
- ‘Tás a brincar!? Não és nada Peixes. Toda tu és Leão!
- Nãnãnãnãnã! Peixes!!!
- Que estranho… Hum! Agora, tu.
- Sei lá!
- Vá, tenta. Eu também não acertei.
- Ok. Gémeos.
O assombro colou-se-lhe à cara.
- Ah, já sabias!
- O quê? Acertei? Juro que não sabia.
- Então, Gémeos porquê?
- Fazes-me lembrar um amigo que é Gémeos – respondi, sincera mas com uma brutal vontade de rir.
- É isso que me lixa na astrologia. As pessoas do mesmo signo são iguais?
E continuou a desenrolar uma linha de pensamento lógico mas que me provocava mais e mais troça.
Regressámos ao jornal, situado numa das partes velhas e nobres da cidade.
Logo que entrou foi diminuindo o ritmo, até parar no início do corredor. Os caracóis oscilaram com o movimento da cabeça, olhos esbugalhados e boca aberta.
- Isto é tão giro. Parece um comboio antigo. Pedes para me tirarem uma fotografia aqui?
Chamei o Zé Alberto. Pôs as mãos nos bolsos dos jeans preparando a pose para a posteridade.
Levei-o para uma sala onde pudemos conversar com o gravador em cima do braço do sofá dele.
Falou-me dos tempos de Paris, da música que tocava no metro, da mãe, do filho, do Bob Dylan, da paixão pelo piano, da sua arte, das editoras, de política, de poesia. Passaram duas horas sem darmos por isso.
Tinha outro compromisso e demos a entrevista por terminada. Vi-o a calcorrear o corredor para a saída. De repente, virou-se.
- Olha lá, se eu me candidatasse a Presidente da República, apoiavas-me?
Dei uma gargalhada.
- Vá, diz lá. ‘Tou a falar a sério – insistiu, impaciente.
- Não tenhas a menor dúvida, Palma. Seria a primeira a assinar a lista…
Tirando o Pedro Abrunhosa, de que já falei, este é o compositor/cantor a que mais concertos tenho ido. Nunca o procurei embora a recordação seja inesquecível. Não faz parte da minha postura, de facto.
Sempre bons, os espectáculos. Lamento quando o vejo cambaleante na fala, no raciocínio, no andar. E lamento também o filho Vicente, já adulto, que toca ao seu lado, sério, formal, arrumadinho, que lhe dá abraços com doses imensas de afecto, e que lida com a adição parental.
Para a história fica a frase dele num concerto em Guimarães:
- Aqui estou eu, malta, nos tomates1 de Portugal!
Que interessa? Continuo-lhe leal. São tão poucas as pessoas que transmitem esta boa energia…
E, apesar dos voos nocturnos, teima em oferecer-nos o seu lado solar. Até mesmo quando o suor dos caracóis nos cai em cima e nos sabe a sal.
1 Não foi bem esta a palavra mas o pudor impede-me de ser fiel…
Estrela do Mar
em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia sozinho ao relento
E ali longe do tempo acabei por dormir
Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar
Sou a estrela do mar
Só a ele obedeço, só ele me conhece
Só ele sabe quem sou no princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim
Não sei se era maior o desejo ou o espanto
Mas sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar
Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são poucos ou nada para a estrela do mar
As palavras dos outros...
Conceito de vida
Na minha próxima vida, quero viver de trás para a frente.
Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E, depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades.
Aí torno-me um bebé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois - "Voilá!" - desapareço num orgasmo...
Woody Allen
sábado, 19 de junho de 2010
José Saramago
Conheci-o era já um escritor reconhecido mas discreto. De ar carrancudo (quem sabe, infeliz!?), vivia na altura com a Isabel da Nóbrega, mulher mais mediática com aquela particularidade facial de quem está prestes a romper em choro.
Estava eu na cozinha da casa de uns amigos comuns, em volta de patos mortos e depenados, quando ele entrou. Foi-me apresentado e, ao contrário do que poderia contar o meu imaginário, não simpatizei com a figura encurvada e marcada pelo tempo. Pensei perceber, no entanto, uma barreira para esconder uma timidez e introversão acentuadas.
Na noite seguinte, no jardim dessa casa, houve uma festa em sua homenagem. Meteu vestidos de alta costura, luzes especiais, fotografias de familiares da mulher pela sala e microfones. Vários discursos. Extenuada de um dia de trabalho duplo e estudos, não retive nenhuma frase.
Alguns anos depois revejo-o na televisão. Estava já casado com a Pilar. Aquele homem racional e alegadamente frio, deu uma entrevista de duas horas à Marília Gabriela. Fiquei em estado de assombro e, pela enésima vez, revoltei-me contra os juízos de valor. Cento e vinte minutos maravilhosos de uma dialéctica inesperada.
A determinada altura, a jornalista introduz o tema da companheira. Aquela expressão dura, que ele nunca conseguiu amenizar, parecia contrariar as palavras, mas não interessava. O conteúdo era tão forte como os carrilhões de Mafra. Lembro-me de pensar: “Está bem, querias... Como bom comunista que é não vai falar da vida pessoal. Nunca o fez...”. Engano puro e duro.
“Acredito que todas as mulheres que conheci e que passaram pela minha vida foram um percurso necessário para encontrar a Pilar”.
Admirei sempre a ligação entre estes dois seres, fisicamente tão diferentes e distantes em idade.
O meu pensamento vai para este escritor que revolucionou a literatura, à semelhança e em picardia com Lobo Antunes, mas dirige-se particularmente para a dor imaginada da sua última mulher, o amor e o suporte da sua vida.
Foram vários os livros que li dele (não todos!), mas não esqueço o “Ensaio sobre a Cegueira”, essa alegoria da distracção social e política do Homem e da decadência violenta a que chega em circunstâncias nem sempre extremas.
Polémica, a atribuição do Nobel. Não para mim. Não sendo um escritor da minha alma, considerei-o e considero-o um artista do léxico e da gramática. Um pensador.
“Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo.”
José Saramago
Jornal da Globo
Parte 1
José Saramago
Jornal da Globo
Parte 2
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Os homens também choram
Quando eu nasci era feita de porcelana.
Dizem os especialistas da matéria, da forma mais isenta possível, que eu era um bebé lindíssimo.
Era! Porque agora já não sou um bebé…
O meu pai não pegava em mim porque tinha sempre a sensação que, se o fizesse, eu me desmanchava. Como um daqueles presentes que nós tentamos preservar religiosamente para não o danificarmos.
Um dia, com cerca de quatro ou cinco anos, fui passear com o meu progenitor. Aventureira como sempre fui, saltitava de pedra em pedra como se de montanhas se tratassem, subia às árvores para estar mais próxima do céu e escalava muros para voltar à terra numa idealização de eterno voo de criança. Paciente, humano e sereno, o meu pai assistia às minhas tropelias.
Quando, de cima de um muro, saltei para o chão, flecti os joelhos e apoiei-me em ambas as mãos levando-as ao solo. Estremeci. O meu pai percebeu imediatamente o que tinha acontecido. Como crianças que somos, quase tudo nos é desconhecido, pelo que reagimos com estranheza. Aquela desagradável sensação ainda não me tinha sido apresentada. Passaram apenas uns escassos segundos e já o meu protector estava junto à minha pobre figura a olhar para as minhas gadanhas que pareciam um autêntico paliteiro. Tinha as palmas das mãos cheias de farpas.
Fomos imediatamente para casa. Esperava-nos uma autêntica intervenção cirúrgica.
Com a pacificidade, tolerância e perseverança que o caracterizam, o meu pai começou, dócil e cuidadosamente, a retirar cada uma daquelas malditas agulhas que assolaram parte de mim. Com o desespero, entrei em histeria e comecei a gritar e a chorar desalmadamente. Olhei para o meu guardião e parei instintivamente os descontrolados lamentos: o meu pai chorava de angústia. Acalmei-me e, em pouco tempo, vi-me salva por aquela brava figura que, uma vez mais, preservara a minha integridade acima de tudo.
Percebi, pela primeira vez, que os homens também choram, que o meu pai faz parte desses homens e que, por menos que lho diga, é o melhor pai do mundo.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Freud, champôs e cremes
- Adivinhaste que ia pedir-te para ficares hoje outra vez lá em casa – disse, ao telefone, assim que chegou ao trabalho.
- Desculpa!?
- Esqueceste-te do champô e dos cremes.
Corei.
- Estás a brincar…
- Não, não. Deixaste-os na casa de banho. Acto falhado, minha querida.
Fiquei calada. Silêncio, a um tempo, envergonhado e feliz.
- Vais lá dormir, não vais? – ronronou.
Hum! Quem tem Freud por mestre dos mestres é um verdadeiro chato…
Fui, claro!
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Fábula
(Recebido através de e-mail. Desconhecemos a autoria)
Um fazendeiro coleccionava cavalos e só faltava uma determinada raça. Um dia descobriu que o seu vizinho tinha o cavalo que lhe faltava. Assim, atazanou o vizinho até conseguir comprá-lo. Um mês depois o cavalo adoeceu e ele chamou o veterinário que disse:
- Bem, o seu cavalo está com uma virose. É necessário tomar este medicamento durante três dias. No 3º dia virei vê-lo novamente e se ele não estiver melhor terá de ser sacrificado.
Um porco ali presente e residente da quinta, ouviu a conversa.
No dia seguinte lá deram o medicamento ao pobre do cavalo. O porco aproximou-se dele e disse-lhe:
- Força amigo! Levanta-te senão serás sacrificado!
No segundo dia, voltaram a medicá-lo. O porco, decidido a encorajar o amigo disse-lhe:
- Vá lá amigo, levanta-te senão vais morrer! Anda, eu ajudo-te a levantar. Upa! Um, dois, três...
No terceiro dia, voltaram a administrar o medicamento e depois de uma observação por parte do veterinário, este disse:
- Infelizmente vamos ter de sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos.
Quando saíram, o porco aproximou-se do cavalo e disse:
- Amigo, é agora ou nunca! Levanta-te, vá! Coragem! Anda, anda! Upa! Upa! Isso, devagar! Óptimo… Vá, um, dois, três… Boa, boa! Agora mais depressa, vai... fantástico! Corre, corre mais! Boa! Boa! Boa! Conseguiste! Conseguiste, campeão!
O dono, ao presenciar o fulgor do cavalo e a dádiva da sua recuperação, gritou:
- Milagre!!! O cavalo melhorou! Temos que festejar. Vamos matar o porco!
Pontos de Reflexão: isto acontece com frequência no ambiente de trabalho. Muitas vezes, ninguém percebe qual é o funcionário que tem verdadeiro mérito pelo sucesso, ou que dá o contributo e suporte para que as coisas aconteçam.
SABER VIVER SEM SER RECONHECIDO É UMA ARTE!
Se um dia alguém te disser que o teu trabalho não é o de um profissional, lembra-te: a Arca de Noé foi feita às mãos de amadores… O Titanic, às de profissionais.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
... Interlúdio...
Silêncio é a chave...
O silêncio entre notas...
Quando esse silêncio o envolve...
Estará só,
estará em paz,
então a sua alma cantará.
Já há algum tempo que pretendemos fazer uma homenagem a um dos nossos grandes amores: a música! A este nível, e apesar de não termos sido, até agora, muito variadas, consideramo-nos eclécticas. Hoje, decidimos fazer referência a um dos maiores compositores de todos os tempos. Um génio de ontem, de hoje e de sempre.
Ludwig van Beethoven é considerado um dos pilares da música ocidental, pelo incontestável desenvolvimento, tanto da linguagem, como do conteúdo musical demonstrado nas suas obras, permanecendo como um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos. "O resumo da sua obra é a liberdade," observou o crítico alemão Paul Bekker (1882-1937), "a liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, a sua liberdade de escolha, de credo e a liberdade individual em todos os aspectos da vida".
Aos 26 anos de idade foi-lhe diagnosticada a congestão dos centros auditivos internos – estava a ficar surdo. Transtornado, isolou-se e entregou-se a uma devastadora depressão. Desesperado, entrou numa profunda crise e pensou em suicidar-se.
Aos 46 anos perdera completamente o seu bem mais precioso: a audição.
Ficou-lhe, no entanto, algo a que muito poucos seres humanos sabem dar voz: a sua essência. E a música era a sua essência.
Entre 1822 e 1824 (três anos antes da sua morte), Beethoven compôs aquela que é considerada a sua maior obra-prima e uma das maiores de sempre: a Sinfonia n.º 9 em ré menor, que ficou mais conhecida por Ode à Alegria. Uma adaptação do poema de Friedrich Schiller, feita pelo próprio Ludwig van Beethoven:
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!
Porque consideramos admirável a obra, a vida e todo o legado deixado por este homem que disse que a música é o idioma de Deus, não poderíamos deixar de render a essa extraordinária figura, bem como à música, a nossa humilde homenagem.
O vídeo que aqui deixamos, é um excerto do filme Corrigindo Beethoven, magistralmente interpretado pelo actor Ed Harris, em que o compositor apresenta a sua 9ª Sinfonia.
A surpresa do público ao ouvir o coro deve-se ao facto de, pela primeira vez, ter sido inserido um coral num movimento de uma sinfonia.
Se o paraíso é assim, nós acreditamos que ele existe!
(Pedimos desculpa pela pouca qualidade do vídeo, mas é muito grande e existem limitações. Aconselhamo-vos, no entanto, a ver o filme.)
E agora a música muda para sempre...
quarta-feira, 2 de junho de 2010
A vários destinos...
Gostei de te ver. Gostei de saber de ti.
Mas cada hora que passa faz-se tarde.
O meu carinho vai-se estilhaçando e caindo, em silêncio, no caminho que ficou.
Se olhar para trás, vejo pó que, de brilhante no início, se transforma em areia seca e dorida.
Quando te encontro não entro em ti.
Ficam-me as pessoas que, por maior que seja a ausência, me continuam a ver.
A acariciar com palavras e gestos.
A acolher, com alegria e de peito aberto, o afecto que lhes tenho.
Ficam-me para sempre porque não sei se há o nunca.
Contigo é a ruína.
Desperdício penoso.
Pensei que percorríamos o mesmo trilho.
Mas quando estendi os braços não estavas lá.
Julguei-te perto, mesmo ao meu lado.
Mas estavas tão longe que as minhas mãos agarraram nada.
E nada vai entrando em mim, roubando-me a alegria.
Pergunto o que é feito dela.
Meu amigo, cada hora que passa faz-se tarde.
Vou ficando desabitada.
E por mais que goste de te ver, por mais que goste de saber de ti
Chegará o momento em que nada disso me interessará.
Estarei alheia.
E perguntar-me-ei quem és, quem foste.
Momento final.
Apenas adeus.
Até sempre, vazio de mim.
Riso partilhado 4
Admito. Por vezes sou uma filha de Eva insuportável. Sinto e vivo as situações dos que amo tanto ou mais do que se fossem minhas.
Foi convidado para um programa de televisão. Longe de ser uma estreia, estava calmo e descontraído. Para mim, um desassossego.
Único pedido que me fez: que lhe escolhesse a roupa. No próprio dia, fui cedo a casa dele. Meti o nariz nos roupeiros, enquanto fatos, camisas e gravatas saíam disparados para cima de qualquer coisa que estivesse à mão.
Etapa vencida, passei às recomendações. Mil e uma. “Não te esqueças de pôr a gravata”. “Olha assim e não assado”. “Não te agarres a bengalas”. “E, por favor, aperta os punhos da camisa!”.
- Está descansada.
- Não, não estou. Já sei que vais chegar atrasado e que te vais esquecer de arranjar a camisa.
Riu-se, pôs-me as mãos nos ombros e empurrou-me até à porta.
- Quero um beijo! – disse-me.
Esperou que eu entrasse no elevador com um “vou dando notícias!”.
À hora, lá estava eu frente à televisão.
Primeiro plano, primeira intervenção. Sendo uma obra da natureza (quase) perfeita, não é nada telegénico. Não faz mal. O que diz e como diz cativa.
“Não posso acreditar”, pensei, “punhos desapertados e o relógio a baloiçar no braço…”
Segundo plano, segunda intervenção. Menino crescido e arranjado. Conheço bem as expressões e percebi um esgar ligeiramente sorridente, tipo “haha, julgavas que me apanhavas!?”.
Dei uma gargalhada forte e sonora. Imaginei-o a arranjar-se enquanto as câmaras focavam os outros dois convidados e a jornalista.
- Então, miúda, o que achaste? – perguntou-me ao telemóvel. Ainda não tinha saído dos estúdios.
- Ai, patrão, patrão, o menino não tem juízo nenhum…
Começou a rir.
- Cheguei atrasado…
Eu, fanática com as horas, teria caído com um enfarte fulminante. Quantas vezes o levei a reboque…!? Até que parei e pensei: “mas o que é isto? Diferente de mim, só tenho que aceitar”. Faço tudo para eliminar o stress. Chegar tarde um minuto que seja põe-me a transpirar copiosamente. Mas não podia preocupar-me porque, para ele, não constituía problema.
Hesitei. Pouco tempo. Muito pouco, mesmo.
O resto do telefonema foi preenchido com gargalhadas, episódios sobre o desregramento dele e palavras de amor.
Riso partilhado 3
O sommier foi feito por medida para acolher aquele corpo grande.
Uma noite, numa reviravolta mal pensada e calculada, caí da cama. As minhas costas rasparam na mesa-de-cabeceira e fiquei sentada no chão com ar taralhoco e dorido.
O riso dele soou casa fora. Olhei-o indignada e levantei-me aos tropeções.
Sangue nos lençóis, no sommier e nas paredes. Parou de rir.
- Que diabo!? – resmunguei – donde é que isto vem?
De uma ferida perto do cotovelo direito que resolveu parecer um massacre.
Água oxigenada? Não. Álcool? Não. Pensos rápidos? Não. Betadine? Não.
Papel de cozinha que dá para quase tudo…
Na manhã seguinte decidiu ter primeiros socorros e entrámos numa farmácia.
Em cima do balcão folhetos sobre “A saúde depois dos 65 anos”.
- Mas que coisa tão apropriada para ti… - agarrei num exemplar e dei-lho com ar trocista.
- É melhor tirares outro.
- Porquê? Vais fazer controlo de qualidade?
- Nada disso. Também te vai dar jeito…
A farmacêutica, admirada, olhou para um e para outro. No instante seguinte, juntou-se-nos na galhofa incontida e turbulenta.
Riso partilhado 2
Estava sentada na sala a ler o jornal enquanto ele se arranjava.
Entrou, nu e de tesoura na mão – tinha estado a aparar a barba. Desorganizado, desembaraçado e em trânsito para outra casa, não tem máquina de barbear.
- Vim à vistoria. Está bem assim? Preciso da tua opinião.
Levantei-me e olhei-o, divertida.
- Se estiver grande, corto mais. Se estiver pequena, tenho ali uns pelinhos que posso colar… Tudo se arranja.
A rir, abracei-o e escondi as minhas mãos naquele cabelo teimosamente encaracolado e a embranquecer.
Alegre, agarrou-me e levantou-me no ar.
Riso partilhado 1
- Sessenta?! Tem 60 anos? – perguntei, incrédula, na sequência de uma afirmação dele.
- Hãhã. Tenho.
- Aaaah, não parece nada! Nada mesmo.
Sorriu, com ar saciado de quem ouve um elogio que reconhece.
Fiquei logo com vontade de mudar de rumo e de recorrer à troça.
- Dava-lhe p’raí uns 70, 75, talvez mesmo 80 anos…
- O QUÊÊÊ???? – arregalou os olhos e franziu o sobrolho. – A sério?
- Claro! Ia até mais para os 80…
O ar de desânimo desarmou-me – não consegui arrastar a brincadeira.
- Mentira. Estou a ‘meter-me’ consigo.
- Bolachinha malandreca, hein?
Sem desviarmos o olhar do outro, as nossas gargalhadas confundiram-se e iluminaram a brisa tépida. Assombro. Tinha encontrado uma pessoa que ria como eu.