segunda-feira, 7 de junho de 2010

Fábula

(Recebido através de e-mail. Desconhecemos a autoria)

Um fazendeiro coleccionava cavalos e só faltava uma determinada raça. Um dia descobriu que o seu vizinho tinha o cavalo que lhe faltava. Assim, atazanou o vizinho até conseguir comprá-lo. Um mês depois o cavalo adoeceu e ele chamou o veterinário que disse:

- Bem, o seu cavalo está com uma virose. É necessário tomar este medicamento durante três dias. No 3º dia virei vê-lo novamente e se ele não estiver melhor terá de ser sacrificado.

Um porco ali presente e residente da quinta, ouviu a conversa.

No dia seguinte lá deram o medicamento ao pobre do cavalo. O porco aproximou-se dele e disse-lhe:

- Força amigo! Levanta-te senão serás sacrificado!

No segundo dia, voltaram a medicá-lo. O porco, decidido a encorajar o amigo disse-lhe:

- Vá lá amigo, levanta-te senão vais morrer! Anda, eu ajudo-te a levantar. Upa! Um, dois, três...

No terceiro dia, voltaram a administrar o medicamento e depois de uma observação por parte do veterinário, este disse:

- Infelizmente vamos ter de sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos.

Quando saíram, o porco aproximou-se do cavalo e disse:

- Amigo, é agora ou nunca! Levanta-te, vá! Coragem! Anda, anda! Upa! Upa! Isso, devagar! Óptimo… Vá, um, dois, três… Boa, boa! Agora mais depressa, vai... fantástico! Corre, corre mais! Boa! Boa! Boa! Conseguiste! Conseguiste, campeão!

O dono, ao presenciar o fulgor do cavalo e a dádiva da sua recuperação, gritou:

- Milagre!!! O cavalo melhorou! Temos que festejar. Vamos matar o porco!

Pontos de Reflexão: isto acontece com frequência no ambiente de trabalho. Muitas vezes, ninguém percebe qual é o funcionário que tem verdadeiro mérito pelo sucesso, ou que dá o contributo e suporte para que as coisas aconteçam.

SABER VIVER SEM SER RECONHECIDO É UMA ARTE!

Se um dia alguém te disser que o teu trabalho não é o de um profissional, lembra-te: a Arca de Noé foi feita às mãos de amadores… O Titanic, às de profissionais.

Procuremos ser pessoas de valor, em vez de pessoas de sucesso!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

... Interlúdio...


Silêncio é a chave...
O silêncio entre notas...
Quando esse silêncio o envolve...
Estará só,
estará em paz,
então a sua alma cantará.


Já há algum tempo que pretendemos fazer uma homenagem a um dos nossos grandes amores: a música! A este nível, e apesar de não termos sido, até agora, muito variadas, consideramo-nos eclécticas. Hoje, decidimos fazer referência a um dos maiores compositores de todos os tempos. Um génio de ontem, de hoje e de sempre.

Ludwig van Beethoven é considerado um dos pilares da música ocidental, pelo incontestável desenvolvimento, tanto da linguagem, como do conteúdo musical demonstrado nas suas obras, permanecendo como um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos. "O resumo da sua obra é a liberdade," observou o crítico alemão Paul Bekker (1882-1937), "a liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, a sua liberdade de escolha, de credo e a liberdade individual em todos os aspectos da vida".

Aos 26 anos de idade foi-lhe diagnosticada a congestão dos centros auditivos internos – estava a ficar surdo. Transtornado, isolou-se e entregou-se a uma devastadora depressão. Desesperado, entrou numa profunda crise e pensou em suicidar-se.

Aos 46 anos perdera completamente o seu bem mais precioso: a audição.

Ficou-lhe, no entanto, algo a que muito poucos seres humanos sabem dar voz: a sua essência. E a música era a sua essência.

Entre 1822 e 1824 (três anos antes da sua morte), Beethoven compôs aquela que é considerada a sua maior obra-prima e uma das maiores de sempre: a Sinfonia n.º 9 em ré menor, que ficou mais conhecida por Ode à Alegria. Uma adaptação do poema de Friedrich Schiller, feita pelo próprio Ludwig van Beethoven:


Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!


Porque consideramos admirável a obra, a vida e todo o legado deixado por este homem que disse que a música é o idioma de Deus, não poderíamos deixar de render a essa extraordinária figura, bem como à música, a nossa humilde homenagem.

O vídeo que aqui deixamos, é um excerto do filme Corrigindo Beethoven, magistralmente interpretado pelo actor Ed Harris, em que o compositor apresenta a sua 9ª Sinfonia.

A surpresa do público ao ouvir o coro deve-se ao facto de, pela primeira vez, ter sido inserido um coral num movimento de uma sinfonia.

Se o paraíso é assim, nós acreditamos que ele existe!

(Pedimos desculpa pela pouca qualidade do vídeo, mas é muito grande e existem limitações. Aconselhamo-vos, no entanto, a ver o filme.)

E agora a música muda para sempre...





quarta-feira, 2 de junho de 2010

A vários destinos...

Gostei de te ver. Gostei de saber de ti.

Mas cada hora que passa faz-se tarde.

O meu carinho vai-se estilhaçando e caindo, em silêncio, no caminho que ficou.

Se olhar para trás, vejo pó que, de brilhante no início, se transforma em areia seca e dorida.

Quando te encontro não entro em ti.

Ficam-me as pessoas que, por maior que seja a ausência, me continuam a ver.

A acariciar com palavras e gestos.

A acolher, com alegria e de peito aberto, o afecto que lhes tenho.

Ficam-me para sempre porque não sei se há o nunca.

Contigo é a ruína.

Desperdício penoso.

Pensei que percorríamos o mesmo trilho.

Mas quando estendi os braços não estavas lá.

Julguei-te perto, mesmo ao meu lado.

Mas estavas tão longe que as minhas mãos agarraram nada.

E nada vai entrando em mim, roubando-me a alegria.

Pergunto o que é feito dela.

Meu amigo, cada hora que passa faz-se tarde.

Vou ficando desabitada.

E por mais que goste de te ver, por mais que goste de saber de ti

Chegará o momento em que nada disso me interessará.

Estarei alheia.

E perguntar-me-ei quem és, quem foste.

Momento final.

Apenas adeus.

Até sempre, vazio de mim.


Riso partilhado 4

Admito. Por vezes sou uma filha de Eva insuportável. Sinto e vivo as situações dos que amo tanto ou mais do que se fossem minhas.

Foi convidado para um programa de televisão. Longe de ser uma estreia, estava calmo e descontraído. Para mim, um desassossego.

Único pedido que me fez: que lhe escolhesse a roupa. No próprio dia, fui cedo a casa dele. Meti o nariz nos roupeiros, enquanto fatos, camisas e gravatas saíam disparados para cima de qualquer coisa que estivesse à mão.

Etapa vencida, passei às recomendações. Mil e uma. “Não te esqueças de pôr a gravata”. “Olha assim e não assado”. “Não te agarres a bengalas”. “E, por favor, aperta os punhos da camisa!”.

- Está descansada.

- Não, não estou. Já sei que vais chegar atrasado e que te vais esquecer de arranjar a camisa.

Riu-se, pôs-me as mãos nos ombros e empurrou-me até à porta.

- Quero um beijo! – disse-me.

Esperou que eu entrasse no elevador com um “vou dando notícias!”.

À hora, lá estava eu frente à televisão.

Primeiro plano, primeira intervenção. Sendo uma obra da natureza (quase) perfeita, não é nada telegénico. Não faz mal. O que diz e como diz cativa.

“Não posso acreditar”, pensei, “punhos desapertados e o relógio a baloiçar no braço…”

Segundo plano, segunda intervenção. Menino crescido e arranjado. Conheço bem as expressões e percebi um esgar ligeiramente sorridente, tipo “haha, julgavas que me apanhavas!?”.

Dei uma gargalhada forte e sonora. Imaginei-o a arranjar-se enquanto as câmaras focavam os outros dois convidados e a jornalista.

- Então, miúda, o que achaste? – perguntou-me ao telemóvel. Ainda não tinha saído dos estúdios.

- Ai, patrão, patrão, o menino não tem juízo nenhum…

Começou a rir.

- Cheguei atrasado…

Eu, fanática com as horas, teria caído com um enfarte fulminante. Quantas vezes o levei a reboque…!? Até que parei e pensei: “mas o que é isto? Diferente de mim, só tenho que aceitar”. Faço tudo para eliminar o stress. Chegar tarde um minuto que seja põe-me a transpirar copiosamente. Mas não podia preocupar-me porque, para ele, não constituía problema.

Hesitei. Pouco tempo. Muito pouco, mesmo.

O resto do telefonema foi preenchido com gargalhadas, episódios sobre o desregramento dele e palavras de amor.


Riso partilhado 3

O sommier foi feito por medida para acolher aquele corpo grande.

Uma noite, numa reviravolta mal pensada e calculada, caí da cama. As minhas costas rasparam na mesa-de-cabeceira e fiquei sentada no chão com ar taralhoco e dorido.

O riso dele soou casa fora. Olhei-o indignada e levantei-me aos tropeções.

Sangue nos lençóis, no sommier e nas paredes. Parou de rir.

- Que diabo!? – resmunguei – donde é que isto vem?

De uma ferida perto do cotovelo direito que resolveu parecer um massacre.

Água oxigenada? Não. Álcool? Não. Pensos rápidos? Não. Betadine? Não.

Papel de cozinha que dá para quase tudo…

Na manhã seguinte decidiu ter primeiros socorros e entrámos numa farmácia.

Em cima do balcão folhetos sobre “A saúde depois dos 65 anos”.

- Mas que coisa tão apropriada para ti… - agarrei num exemplar e dei-lho com ar trocista.

- É melhor tirares outro.

- Porquê? Vais fazer controlo de qualidade?

- Nada disso. Também te vai dar jeito…

A farmacêutica, admirada, olhou para um e para outro. No instante seguinte, juntou-se-nos na galhofa incontida e turbulenta.


Riso partilhado 2

Estava sentada na sala a ler o jornal enquanto ele se arranjava.

Entrou, nu e de tesoura na mão – tinha estado a aparar a barba. Desorganizado, desembaraçado e em trânsito para outra casa, não tem máquina de barbear.

- Vim à vistoria. Está bem assim? Preciso da tua opinião.

Levantei-me e olhei-o, divertida.

- Se estiver grande, corto mais. Se estiver pequena, tenho ali uns pelinhos que posso colar… Tudo se arranja.

A rir, abracei-o e escondi as minhas mãos naquele cabelo teimosamente encaracolado e a embranquecer.

Alegre, agarrou-me e levantou-me no ar.


Riso partilhado 1

- Sessenta?! Tem 60 anos? – perguntei, incrédula, na sequência de uma afirmação dele.

- Hãhã. Tenho.

- Aaaah, não parece nada! Nada mesmo.

Sorriu, com ar saciado de quem ouve um elogio que reconhece.

Fiquei logo com vontade de mudar de rumo e de recorrer à troça.

- Dava-lhe p’raí uns 70, 75, talvez mesmo 80 anos…

- O QUÊÊÊ???? – arregalou os olhos e franziu o sobrolho. – A sério?

- Claro! Ia até mais para os 80…

O ar de desânimo desarmou-me – não consegui arrastar a brincadeira.

- Mentira. Estou a ‘meter-me’ consigo.

- Bolachinha malandreca, hein?

Sem desviarmos o olhar do outro, as nossas gargalhadas confundiram-se e iluminaram a brisa tépida. Assombro. Tinha encontrado uma pessoa que ria como eu.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Son(h)o adormecido

Estávamos sentados no sofá, a olhar para a caixinha dos bonecos. As minhas costas aninhadas no peito dele, e com uma das mãos entrelaçadas.

- Panqueca, queres casar comigo?

Vi-me surpreendida com a questão. Já tínhamos abordado aquele assunto por várias vezes e éramos da mesma opinião. O casamento, no sentido em que é aplicado, não nos fazia muito sentido. Afinal, assinar um contrato de promessa para o bem e para o mal, na saúde e na doença, blá, blá, blá, fazia-nos interpretar este como um acto de obrigação para com o outro. Nós não concebemos um relacionamento e compromisso assim. No entanto – confesso – por mais abstracto que o casamento seja para algumas de nós, sabe sempre bem ouvir a pergunta. Respondi, com a devida cautela.

– Já falámos sobre isso. Porquê essa pergunta?

– Eu sei – encostou a cabeça dele à minha. – Não estava a falar nesse sentido. Estou a renovar os meus sentimentos, o meu carinho, a minha vontade de estar presente... Sei lá... Tudo aquilo que me faz gostar de ti e querer continuar a ser teu companheiro se assim o quiseres.

Engoli em seco. Estremeci de emoção e, ao mesmo tempo, de receio de um dia perder aquele momento. Resolvi aproveitá-lo e agarrá-lo como se fosse o último fôlego. Sorri ternamente e disse-lhe:

- Nesse caso, quero! Sim. Quero muito!

Percorreu-me a face com doces e vagarosos beijos. Por fim, deu-me um abraço e acolheu-me. Senti-me o ser mais pequeno mas seguro do mundo.

Uns minutos depois, acordei...


Cuca

Tenho um novo habitante em casa.

Há cerca de sete anos comprei uma gaiola de pé alto, com dimensões para fazer criação. Nunca foi esse o meu objectivo. Adquiri-a para abrigar um presente já com nome: um periquito albino.

Como sou uma mulher de desafios, tentei pôr-me no lugar do Light. E foi assim que lhe arranjei uma casa grande. Usufruiu-a durante apenas seis meses. Mas foi um excelente parceiro. Acompanhou-me nas férias.

Quando tinha que andar com a gaiola na rua, via as pessoas olharem com curiosidade e sorrirem. Repleta de sininhos, espelhinhos, poleiros, baloiços e outros brinquedos. Um circo.

Antes de cair no chão do seu lar, tinha estado comigo. Senti-o nervoso e com um batimento cardíaco alterado. A determinada altura, subiu, enfiou-se pescoço dentro e escondeu-se nos meus cabelos. Foi o último mimo dele.

Agonizou durante duas horas nas minhas mãos. Morreu às onze horas de uma noite de segunda-feira, véspera de feriado, com sofrimento, com as minhas palavras e as minhas lágrimas. Perdia um Amigo.

Durante duas semanas, e ao contrário do que me aconselhavam, não quis ouvir falar de animais. De repente (faz parte de mim), decidi que queria outro periquito.

Entrou o Blue. Já adulto e tamanho XL. Azul muito claro e com doses extras de penas. Quando está molengas, chamo-lhe Pai Natal. Quando dorme, penso que os anjos são assim.

Calmo, meigo, com tendência para a depressão.

Uns meses depois, o Yuri.

Amarelo, magro, inquieto, traquinas, egoísta, nervoso.

O Blue acolheu-o de imediato, num acto de grande generosidade. Tem aturado as patifarias do mano pequeno com uma bonomia invejável.

E assim temos vivido.

Sábado, fui ao quarto buscar um casaco. Passei pela sala onde está a gaiola e, como sempre, falei com eles. No segundo seguinte estavam a esvoaçar ao mesmo tempo que piavam muito alto. Vi uma coisa pequena a voar na rua.

- Que raio… Uma vespa gigante?

A coisa pequena poisou no parapeito e os meus miúdos atropelavam-se de agitação. Aproximei-me e fiquei em estado de espanto: um periquito bebé fugido. Bolinha verde-escura a olhar para os seus congéneres.

Estamos a falar de um terceiro andar…!

Não criei expectativas e pensei que ele fugiria e acabaria na boca de um gato. Abri a janela muito devagar. Manteve-se quieto. Sem me mexer, comecei a falar com ele muito baixinho e pausadamente.

Estivemos assim durante um minuto ou dois. Então, recuei lentamente. Voou para as grades da gaiola enquanto o Blue e o Yuri, completamente tontos, pareciam ter óculos de míope e ver um elefante.

Fechei a janela e apanhei-o. Abri uma das portinholas e ele saltou, de imediato, lá para dentro. Dirigiu-se para um comedouro. Contabilizei: 20 minutos enfiado nas sementes a devorá-las. Desnutrido. Não consegui perceber o sexo porque o nariz tinha uma cor entre o violeta, o rosa e o azul. Adormeceu depois de comer.

Ia acordando para continuar a matar a fome e conhecer o território com saltinhos deliciosos. Dirigia-se para um lado e lá fugiam os outros dois para o canto contrário.

Vem para a minha mão com toda a facilidade. Voa para onde quer com um grande sentido de orientação. Ao contrário do Blue e do Yuri que se atiram contra tudo o que é objecto, caindo desamparados e aturdidos.

A natureza é fantástica. Cada hora que passa vêem-se diferenças. É realmente macho. Nariz inquestionavelmente azul. Continua a comer desalmadamente mas deixou de ser bolinha.

Esticadinho, parece aquelas pessoas que, por serem pequenas e complexadas por isso, se põem em bicos de pés para dizerem ao mundo que são e estão. Tipo burro do Shrek.

Destemido, tira os outros dos lugares deles e está-se nas tintas para que o piquem. Sabe lutar pelo que quer.

Acredito que nada é por acaso e, com toda a incredulidade que esta história provoca, só posso pensar que procurou o lar dele, encontrando-o, sabe Deus a que custo.

À medida que vai ficando mais vivaço, o Blue vai sucumbindo. Passa o dia a dormir e deixou de comer. O pequenino procura-o – vê-se que gosta de estar ao pé dele mas o meu Pai Natal azul claro não está para aí virado.

Perdeu a sociabilidade ou, uma vez mais, a vontade de viver.

sábado, 22 de maio de 2010

... Interlúdio...

A culpa é dos genes…

Os genes têm destas coisas.

Os genes, os valores e as experiências que vemos, vivemos e absorvemos.

Andámos a escolher um vídeo para o blogue. A Vírgula lembra-se logo de quinhentas mil canções do Leonard Cohen. E escolheu uma versão de 1988, ano em que o viu, pela primeira vez, em concerto, e em que o conheceu pessoalmente.

Este Take This Waltz, com palavras de Lorca, delicia-a. A interpretação de Cohen fascina-a.

Continuámos a procurar e descobrimos que Adam Cohen é filho dele e canta algumas das canções do pai. Esta, em particular, uma das suas favoritas, fá-lo em castelhano e em inglês. Optámos pela última versão.

Gerações e interpretações diferentes. Ambas brutalmente maravilhosas.

É assim mesmo: os genes Cohen são de primeiríssima qualidade. Graças a Deus! Dão brilho à vida de milhões de pessoas que, como nós, ficam em estado de encantamento ao vê-los, ouvi-los e lê-los.


Take This Waltz

Leonard Cohen e Adam Cohen, respectivamente
Federico García Lorca / Leonard Cohen


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Visitante trezentos

Esta coisa das novas tecnologias é muito gira mas também muito assustadora.

Como não pretendemos enganar ninguém, chamamos a atenção para o número que está no final da nossa página e que vai actualizando o total de visitantes que se dão ao trabalho (e nos concedem esse presente) de ver o nosso blogue. Pois bem... Embora a informação detalhada não esteja disponível para vós, nós conseguimos verificar, pelos endereços de IP, quem acedeu à nossa página a menos que a pessoa esteja a utilizar um programa de 'camuflagem' de IP.

Esclarecemos, no entanto, que as nossas próprias visitas não contam, já que podemos configurar os nossos computadores para que, sempre que acedamos ao nosso blogue, esses acessos não sejam contabilizados. Assim, temos uma informação fidedigna, ao contrário do que verificamos noutros blogues.

Temos tido, desde que tornámos este espaço público, mais visitantes do que esperaríamos, o que se tem revelado uma maravilhosa surpresa. Já percebemos, também, que temos uma presença (muitíssimo) assídua mas, curiosamente, não sabemos quem é.

Fazendo um balanço deste período e aproveitando o facto de estarmos a atingir as cerca de trezentas visitas em pouco mais de um mês, o que consideramos maravilhoso já que praticamente não divulgámos o blogue, queremos aproveitar para agradecer-vos a atenção que nos tem sido oferecida e desejar que assim se mantenha.

Obrigada!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Interregno

- Aaah, não há sopa! - disse a matriarca.

- Não faz mal - respondeu o patriarca.

- E acho que só há um pêro.

Foram ambos para a cozinha.

- Olha, nem bananas há. Tu hoje não tens nada.

- Tenho-te a ti.

- Maluco - riu-se.

- Maluco por ti.

Cinquenta e oito anos de casados. Oitenta de idade.

Pois é. É possível manter cumplicidades, viver compromissos saudáveis e fazer juras de amor eterno.

Não para quem quer. Mas para quem pode e sabe.

domingo, 16 de maio de 2010

Encontro

Senti-o levantar da cama e ouvi-o tomar banho.

Tinha um encontro com o doente dos sábados, felizmente sem hora marcada.

Deslizei para o lado dele e enrolei-me. Era o que me apetecia. De início, com os olhos fixos na parede. Cansei-me e fechei-os, desejando entrar num estado de semi-hipnose.

Chegou ao quarto, ainda com o toalhão. Mas viu-me e percebeu.

Deitou-se e encostou-se a mim, abraçando-me. O meu urso enorme que faz o meu desajeitado 1,71m encolher-se até parecer uma criança.

- O que se passa, bolinho sofrido?

Apenas um ligeiro suspiro.

Afastou-me os cabelos e beijou-me o pescoço e a orelha.

- Fala! Estou aqui.

Virei-me. Ficou na mesma posição, levantando apenas as mãos para me ajeitar como quisesse.

Escondi a minha cara naquele peito que tão bem conheço e amo. As minhas pernas no meio das dele. O desejo de me fundir. Dois corpos num só, disforme mas completo.

Este homem é o meu lar.

- Querida...

Interrompi-o com voz baixa e infantil.

- Só quero estar assim.

Foi-me beijando a cabeça ao mesmo tempo que me alisava o cabelo, num carinho habitual.

Não é fácil, eu sei. Mexeu-se e percorreu-me o ombro com os lábios. Sabia o que queria dizer. O corpo dele estava acordado.

- Gi, desculpa mas só quero estar assim.

Naquele momento, não me apetecia que me "beijasse de baixo para cima e bice-bersa". Precisava do amigo.

As carícias, moderadas, continuaram e eu só desejava que aquele momento congelasse. A minha alma sorriu: sedento mas controlado.

- Tens que ir. Estás a atrasar-te.

- Não te preocupes. Agora estou contigo e é isso que importa. Tenta não pensar.

Equação derradeira. "Amo tanto este homem..."

A tensão abandonou-me, o meu coração apaziguou-se, os vazios foram sendo preenchidos e a sonolência chegou.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Solidão

Sexta-feira danada.

Ressaca de dia de trabalho esgotante misturado com memórias que não deviam ser, vazios frios e persistentes, solidão que sobrevive a tempestades. O Francisco, do Café In, ao ver-nos (vírgula e ponto...), abriu o sorriso.

- Que bom ver-vos! Uma inspiração para mim. Até estou mais feliz! Vocês são os anjos que me protegem aqui. Chiu!

Há palavras e gestos que abrem e preenchem a alma. Mas não quando a aflição nos invade.

Salto, de imediato, para outra sexta-feira em que saí do restaurante para fumar.

Quando cheguei à mesa, uma mensagem tua no meu telemóvel.

“Estou à tua espera para que me beijes!”

Recordação fiel ou alucinação?

Hoje só me apetece enrolar-me e sentir o teu abraço.




Não vá ainda
Simone e Zélia Duncan
Simone ao Vivo


terça-feira, 11 de maio de 2010

Amor e um quarto...

Levantei-me com cuidado para não o despertar.

Na véspera, para conseguir deitar-me, tive que fazer um barulho sinfónico porque estava atravessado na cama. Sentou-se à beirinha, de olhos fechados, e deixou-se ficar.

Ri-me baixinho.

- O que estás tu a fazer? Volta a fazer ó-ó.

- Huuummm – grunhiu, ensonado e com voz enrouquecida. – Não somos como vocês, mulheres, que acordam prontas para a vida. Nós somos uns ursos…

E continuou na mesma posição. Deitei-o. Apagou no instante seguinte.

A luz do Sol atravessava os cortinados. Comecei a arrumar o quarto.

- Ah, é assim? ‘Tá bem. Deixa.

Sobressaltei-me. Pensando que continuava a dormir, olhei para ele, meio surpreendida, meio divertida.

- Uau. O Gigio já acordou...

- É assim, não é? Deixa.

- O que foi?

- O que foi? Levantas-te e nem um beijo de bom dia? Umzinho? Deixa. Vais ver.

Dei uma gargalhada, saltei para cima dele e beijei sonora e repetidamente aquela cara amada e carente.

Como a brincadeira está sempre presente, as cócegas vieram logo de seguida. Mas quem consegue vencer uma torre sólida de 1,85m?

Guerra de almofadas, de mãos e braços a impedir o avanço do outro. Foi o primeiro a cair. A batalha barulhenta continuou no chão. Fomos contra a mesa-de-cabeceira. O tampo de mármore tombou com um estrondo brutal e o móvel, periclitante, tentou manter a sua dignidade.

Olhámo-nos, mas não me deu tempo para recuperar da aflição. Atacou-me de novo.

Capitulei. O riso deixou-me sem forças.

- Ronroninha… – disse.

- Siiiiim?

- E se voltássemos para a cama? Quero beijar-te de baixo para cima e bice-bersa.





I'm Your Man
Leonard Cohen
London Live

O preço dos afectos ou a arte de afectar

Estou numa fase de terrível carência afectiva. O problema é que quando me ponho a pensar, ou melhor, a reflectir sobre isto, fico com a desagradável sensação de que ‘esta fase’ já nasceu comigo ou eu com ela.

O que é ou de que se reveste, afinal, um afecto? Para que é que ele serve senão para nos desinquietar a alma, na sua ausência?

Não me considerando eu uma pessoa de afectos, encaro-me como uma pessoa afectiva. Ou será o contrário? Conseguiremos nós ser afectivos e não demonstrar afecto ou, por outro lado, distribuir afecto como se isso fosse um acto obrigatório de quem nasce com o sentimento de dever cumprido ao esbanjar gratuitamente carinho?

Chamem-me o que quiserem mas quando alguém dá uma palmadinha nas costas de outra, ainda que sob outras formas – beijos, abraços, festinhas – por ‘peninha’ ou compaixão, não consigo encará-lo senão como uma forma dissimulada de caridade. Não estou a dizer que seja mau. Só estou a dizer que o considero pouco ou nada genuíno. Não concordo com a caridade. Não no sentido em que hoje é aplicada. Caridade soa-me, hoje em dia, a favor. Levado ao extremo, estabeleço uma metáfora visual: - tu estás carente, eu estou carente. Toma lá um beijo na boca, apaixonado e repleto de doçura, continuamos na cama e depois é cada um para seu lado, ok? Sequiosos que estamos de carinho, nem pensamos duas vezes. Ou – Eu? Beijinhos? Ele(a) não me dá porque hei-de eu dar-lhe? Era o que mais faltava! – Onde é que está a genuinidade disto?

Mas, afinal, que merda é esta? O afecto é, para mim, uma manifestação de amor, qualquer que seja a forma de que se reveste. Seja amor maternal, paternal, fraternal, espiritual. É algo que se dá intrinsecamente e que não é questionável. Algo que não exige palavras ou justificações de qualquer espécie. E não acredito nem quero acreditar que se resuma a um acto isolado. Acho que o afecto só existe e acontece verdadeiramente quando os intervenientes estão em perfeita sintonia. No fundo, ambas as partes assumem o papel de emissor e receptor numa construção contínua.

A verdade, é que chego à conclusão que, no fundo, o afecto é algo de tão puro e genuíno que temos dificuldade em dar e receber e quando acontece, nem damos por isso a não ser quando a tal sintonia entre as partes é total. E quando somos agredidos, mesmo da forma mais subtil, reagimos quase sempre com igual displicência quando muitas vezes o bramido que nos torpedeou foi, afinal, um grito de socorro. E cá andamos nós, à deriva.

O afecto é uma coisa maravilhosa quando não temos de pagar um preço por ele porque, aí, deixa de ser afecto para passar a ser mais um ‘género’ com o qual pagamos as dívidas de um contrato de promessa que nunca assinámos.

Neste momento, sinto uma vontade imensa de beijar, abraçar, afagar e olhar para aqueles que me são mais queridos. Se o farei? Talvez…

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Deus é fiel"

Parabéns, Benfica.

Parabéns, Equipa.

Parabéns, Jesus.

Não vou falar do jogo de ontem. Não farei julgamentos por um acto isolado. No caso presente, tratou-se de uma excelente época.

Reunimo-nos ontem em família. À semelhança de muita gente, o meu pai pediu para lhe a
ctivarem a Sport TV:) - quatro benfiquistas desde o berço.

Quando os comentadores disseram que havia mais de 64 mil espectadores na Luz, o patriarca deu uma gargalhada baixa.


- Este é um país muito pequeno para um clube tão grande!!!

De facto. Ser do Benfica, sócio ou não, é uma espécie de casamento: para o melhor e para o pior. Desmotivámo-nos com o jejum? Claro que sim. Abandonámo-lo? Claro que não.


Glorioso SLB!
Na saúde e na doença.


sábado, 8 de maio de 2010

... Interlúdio...



Jura Secreta
Simone
Simone ao Vivo


Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz

A briga de amor que não causei


Nada do que posso me alucina

Tanto quanto o que não fiz

Nada do que eu quero me suprime

De que por não saber ainda não quis


Só uma palavra me devora

Aquela que meu coração não diz

Só o que me cega, o que me faz infeliz

É o brilho do olhar que não sofri


terça-feira, 4 de maio de 2010

Adeus, Pedro Abrunhosa. Até um dia ou dia nenhum...

As paixões vêm e vão. Todos temos o direito de mudar de gostos e de opinião. Em especial quando, de início, as pessoas demonstram ser o que demonstram depois não ser. Só tenho um amor incondicional. Confessá-lo-ei mais tarde.

Assunto: Pedro Abrunhosa.

Sou uma mulher sem palavra. Já jurei a mim própria duas vezes que não iria a mais concertos dele. Prevariquei.

Este último, na passada sexta-feira, na FNAC do Chiado, foi à borla. Como adoro petiscar no Café S. Luiz e não gosto da forma como o Abrunhosa interpreta a nova canção que tanto passa na rádio, a curiosidade foi mais forte do que a honra. E com o diabo da crise, a gratuitidade é sempre bem-vinda

Começou bem.

Distraída como sou, aterrei na cadeira da coxia lateral da primeira fila. Tempo depois reparei no que estava a uns cinco ligeiros passitos de mim: uma das colunas de som. A coisa prometia. Convencidíssima de que começava às 22:00h. Não, engano, era às 22:30h. Fiquei com o maxilar torto de tantos bocejos. Mal eu sabia que o tormento iria começar.

O coro iniciou os vocalizes e a banda os sons. Do local onde estava até um morto ressuscitava. “Vou-me embora?”. “Fico?”. Dúvida instalada. Como não estava sozinha e as opiniões devem ser baseadas em factos, mantive-me sentada, muito pouco firme e hirta.

E pronto. Eis que a estrela fez a habitual entrada triunfante.

Aviso de mudança de estilo, mais cordas e eu a pensar que talvez… é capaz… pode ser que… “Que” o quê? QUE grande credulidade e esperança naïf. Primeiro, e porque estava quase em cima do palco, vi o que não queria. Os efeitos da idade fazem-me muita confusão e provocam-me um misto de pena e de indignação.

O espectáculo teve início. Valha-me Deus! Rockalhada que não se podia. A voz mal se ouvia, as palavras… essas, então, era como se não existissem.

Surge, então, a primeira balada. Dou a mão à palmatória. O Abrunhosa é, quanto a mim, um bom compositor de músicas e letras (não todas, claro). Lindíssima. Aplaudi pela primeira vez. O rock continuou.

Encore gritado e batido. Fez-se esperar mas já estava preparado antecipadamente. Fica sempre bem ‘o que é que não é’. Santa paciência.

Dispensável. Tão, mas tão dispensável…

Houve um espectáculo que não quis perder: 20 canções e um poema de amor. Lembro a ira que senti. As canções, maravilhosas, foram completamente ironizadas por ele. Homem inteligente e culto, a vaidade elimina-lhe os limites: o sarcasmo é tão pateta, tão pueril, tão penoso que me pergunto como é possível alguém rir-se e não se enrolar de vergonha perante tanta palermice e desconstrução.

Esse clássico da minha pré-adolescência, Je t’aime, moi non plus, foi literalmente assassinado. E zanguei-me a sério.

Regressando a sexta-feira. Acabou o que, para mim, não devia ter começado. Subi o Chiado de forma indigna: surda, a andar aos esses e com uma dor latejante na cabeça.

Agora, é de vez.

Quando tiver o próximo ataque de masoquismo, juro que emborco, de uma tirada, uma garrafa de bagaço. Nunca experimentei mas a ressaca não deve ser muito diferente. Quem sabe até se não será menos dolorosa e prolongada!?...

sábado, 1 de maio de 2010

... Interlúdio...




The house of the rising sun (1964)
The Animals

Esta canção, presente em quase todos os meus CD, é uma dádiva do passado. Recordo a adolescência, “A viagem ao Mundo da Droga”, o “Enterra-me com as botas”, o pânico dos meus pais, a erva passada no liceu e que eu, por cobardia ou bom senso, nunca provei, os pequenos e inofensivos desvios, o início do vício de fumar… Tanta coisa que, com a bruma do tempo, se transformou numa vivência boa e alegre.

Não a considero nada de especial, pelo menos que levasse a pô-la aqui, a não ser o mundo de lembranças que traz.

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