terça-feira, 11 de maio de 2010

Amor e um quarto...

Levantei-me com cuidado para não o despertar.

Na véspera, para conseguir deitar-me, tive que fazer um barulho sinfónico porque estava atravessado na cama. Sentou-se à beirinha, de olhos fechados, e deixou-se ficar.

Ri-me baixinho.

- O que estás tu a fazer? Volta a fazer ó-ó.

- Huuummm – grunhiu, ensonado e com voz enrouquecida. – Não somos como vocês, mulheres, que acordam prontas para a vida. Nós somos uns ursos…

E continuou na mesma posição. Deitei-o. Apagou no instante seguinte.

A luz do Sol atravessava os cortinados. Comecei a arrumar o quarto.

- Ah, é assim? ‘Tá bem. Deixa.

Sobressaltei-me. Pensando que continuava a dormir, olhei para ele, meio surpreendida, meio divertida.

- Uau. O Gigio já acordou...

- É assim, não é? Deixa.

- O que foi?

- O que foi? Levantas-te e nem um beijo de bom dia? Umzinho? Deixa. Vais ver.

Dei uma gargalhada, saltei para cima dele e beijei sonora e repetidamente aquela cara amada e carente.

Como a brincadeira está sempre presente, as cócegas vieram logo de seguida. Mas quem consegue vencer uma torre sólida de 1,85m?

Guerra de almofadas, de mãos e braços a impedir o avanço do outro. Foi o primeiro a cair. A batalha barulhenta continuou no chão. Fomos contra a mesa-de-cabeceira. O tampo de mármore tombou com um estrondo brutal e o móvel, periclitante, tentou manter a sua dignidade.

Olhámo-nos, mas não me deu tempo para recuperar da aflição. Atacou-me de novo.

Capitulei. O riso deixou-me sem forças.

- Ronroninha… – disse.

- Siiiiim?

- E se voltássemos para a cama? Quero beijar-te de baixo para cima e bice-bersa.





I'm Your Man
Leonard Cohen
London Live

O preço dos afectos ou a arte de afectar

Estou numa fase de terrível carência afectiva. O problema é que quando me ponho a pensar, ou melhor, a reflectir sobre isto, fico com a desagradável sensação de que ‘esta fase’ já nasceu comigo ou eu com ela.

O que é ou de que se reveste, afinal, um afecto? Para que é que ele serve senão para nos desinquietar a alma, na sua ausência?

Não me considerando eu uma pessoa de afectos, encaro-me como uma pessoa afectiva. Ou será o contrário? Conseguiremos nós ser afectivos e não demonstrar afecto ou, por outro lado, distribuir afecto como se isso fosse um acto obrigatório de quem nasce com o sentimento de dever cumprido ao esbanjar gratuitamente carinho?

Chamem-me o que quiserem mas quando alguém dá uma palmadinha nas costas de outra, ainda que sob outras formas – beijos, abraços, festinhas – por ‘peninha’ ou compaixão, não consigo encará-lo senão como uma forma dissimulada de caridade. Não estou a dizer que seja mau. Só estou a dizer que o considero pouco ou nada genuíno. Não concordo com a caridade. Não no sentido em que hoje é aplicada. Caridade soa-me, hoje em dia, a favor. Levado ao extremo, estabeleço uma metáfora visual: - tu estás carente, eu estou carente. Toma lá um beijo na boca, apaixonado e repleto de doçura, continuamos na cama e depois é cada um para seu lado, ok? Sequiosos que estamos de carinho, nem pensamos duas vezes. Ou – Eu? Beijinhos? Ele(a) não me dá porque hei-de eu dar-lhe? Era o que mais faltava! – Onde é que está a genuinidade disto?

Mas, afinal, que merda é esta? O afecto é, para mim, uma manifestação de amor, qualquer que seja a forma de que se reveste. Seja amor maternal, paternal, fraternal, espiritual. É algo que se dá intrinsecamente e que não é questionável. Algo que não exige palavras ou justificações de qualquer espécie. E não acredito nem quero acreditar que se resuma a um acto isolado. Acho que o afecto só existe e acontece verdadeiramente quando os intervenientes estão em perfeita sintonia. No fundo, ambas as partes assumem o papel de emissor e receptor numa construção contínua.

A verdade, é que chego à conclusão que, no fundo, o afecto é algo de tão puro e genuíno que temos dificuldade em dar e receber e quando acontece, nem damos por isso a não ser quando a tal sintonia entre as partes é total. E quando somos agredidos, mesmo da forma mais subtil, reagimos quase sempre com igual displicência quando muitas vezes o bramido que nos torpedeou foi, afinal, um grito de socorro. E cá andamos nós, à deriva.

O afecto é uma coisa maravilhosa quando não temos de pagar um preço por ele porque, aí, deixa de ser afecto para passar a ser mais um ‘género’ com o qual pagamos as dívidas de um contrato de promessa que nunca assinámos.

Neste momento, sinto uma vontade imensa de beijar, abraçar, afagar e olhar para aqueles que me são mais queridos. Se o farei? Talvez…

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Deus é fiel"

Parabéns, Benfica.

Parabéns, Equipa.

Parabéns, Jesus.

Não vou falar do jogo de ontem. Não farei julgamentos por um acto isolado. No caso presente, tratou-se de uma excelente época.

Reunimo-nos ontem em família. À semelhança de muita gente, o meu pai pediu para lhe a
ctivarem a Sport TV:) - quatro benfiquistas desde o berço.

Quando os comentadores disseram que havia mais de 64 mil espectadores na Luz, o patriarca deu uma gargalhada baixa.


- Este é um país muito pequeno para um clube tão grande!!!

De facto. Ser do Benfica, sócio ou não, é uma espécie de casamento: para o melhor e para o pior. Desmotivámo-nos com o jejum? Claro que sim. Abandonámo-lo? Claro que não.


Glorioso SLB!
Na saúde e na doença.


sábado, 8 de maio de 2010

... Interlúdio...



Jura Secreta
Simone
Simone ao Vivo


Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz

A briga de amor que não causei


Nada do que posso me alucina

Tanto quanto o que não fiz

Nada do que eu quero me suprime

De que por não saber ainda não quis


Só uma palavra me devora

Aquela que meu coração não diz

Só o que me cega, o que me faz infeliz

É o brilho do olhar que não sofri


terça-feira, 4 de maio de 2010

Adeus, Pedro Abrunhosa. Até um dia ou dia nenhum...

As paixões vêm e vão. Todos temos o direito de mudar de gostos e de opinião. Em especial quando, de início, as pessoas demonstram ser o que demonstram depois não ser. Só tenho um amor incondicional. Confessá-lo-ei mais tarde.

Assunto: Pedro Abrunhosa.

Sou uma mulher sem palavra. Já jurei a mim própria duas vezes que não iria a mais concertos dele. Prevariquei.

Este último, na passada sexta-feira, na FNAC do Chiado, foi à borla. Como adoro petiscar no Café S. Luiz e não gosto da forma como o Abrunhosa interpreta a nova canção que tanto passa na rádio, a curiosidade foi mais forte do que a honra. E com o diabo da crise, a gratuitidade é sempre bem-vinda

Começou bem.

Distraída como sou, aterrei na cadeira da coxia lateral da primeira fila. Tempo depois reparei no que estava a uns cinco ligeiros passitos de mim: uma das colunas de som. A coisa prometia. Convencidíssima de que começava às 22:00h. Não, engano, era às 22:30h. Fiquei com o maxilar torto de tantos bocejos. Mal eu sabia que o tormento iria começar.

O coro iniciou os vocalizes e a banda os sons. Do local onde estava até um morto ressuscitava. “Vou-me embora?”. “Fico?”. Dúvida instalada. Como não estava sozinha e as opiniões devem ser baseadas em factos, mantive-me sentada, muito pouco firme e hirta.

E pronto. Eis que a estrela fez a habitual entrada triunfante.

Aviso de mudança de estilo, mais cordas e eu a pensar que talvez… é capaz… pode ser que… “Que” o quê? QUE grande credulidade e esperança naïf. Primeiro, e porque estava quase em cima do palco, vi o que não queria. Os efeitos da idade fazem-me muita confusão e provocam-me um misto de pena e de indignação.

O espectáculo teve início. Valha-me Deus! Rockalhada que não se podia. A voz mal se ouvia, as palavras… essas, então, era como se não existissem.

Surge, então, a primeira balada. Dou a mão à palmatória. O Abrunhosa é, quanto a mim, um bom compositor de músicas e letras (não todas, claro). Lindíssima. Aplaudi pela primeira vez. O rock continuou.

Encore gritado e batido. Fez-se esperar mas já estava preparado antecipadamente. Fica sempre bem ‘o que é que não é’. Santa paciência.

Dispensável. Tão, mas tão dispensável…

Houve um espectáculo que não quis perder: 20 canções e um poema de amor. Lembro a ira que senti. As canções, maravilhosas, foram completamente ironizadas por ele. Homem inteligente e culto, a vaidade elimina-lhe os limites: o sarcasmo é tão pateta, tão pueril, tão penoso que me pergunto como é possível alguém rir-se e não se enrolar de vergonha perante tanta palermice e desconstrução.

Esse clássico da minha pré-adolescência, Je t’aime, moi non plus, foi literalmente assassinado. E zanguei-me a sério.

Regressando a sexta-feira. Acabou o que, para mim, não devia ter começado. Subi o Chiado de forma indigna: surda, a andar aos esses e com uma dor latejante na cabeça.

Agora, é de vez.

Quando tiver o próximo ataque de masoquismo, juro que emborco, de uma tirada, uma garrafa de bagaço. Nunca experimentei mas a ressaca não deve ser muito diferente. Quem sabe até se não será menos dolorosa e prolongada!?...

sábado, 1 de maio de 2010

... Interlúdio...




The house of the rising sun (1964)
The Animals

Esta canção, presente em quase todos os meus CD, é uma dádiva do passado. Recordo a adolescência, “A viagem ao Mundo da Droga”, o “Enterra-me com as botas”, o pânico dos meus pais, a erva passada no liceu e que eu, por cobardia ou bom senso, nunca provei, os pequenos e inofensivos desvios, o início do vício de fumar… Tanta coisa que, com a bruma do tempo, se transformou numa vivência boa e alegre.

Não a considero nada de especial, pelo menos que levasse a pô-la aqui, a não ser o mundo de lembranças que traz.

E como este blogue é um espaço de convivência entre amigos… partilhemos e despe(o)jemo-nos!


sexta-feira, 30 de abril de 2010

Filha de Eva

Sei lá. Estava a almoçar, e vá-se lá saber porquê, lembrei-me do Mark Twain. Há razão? Claro que não. Contemporâneos ou não, existem p’raí marcianos que, num ápice, nos aumentam a temperatura. O que não é o caso do já dito, morto e enterrado.

Não é que interesse. Bom, pelo menos a mim não me interessa. Aplica-se-me o adágio de “quem feio ama, bonito lhe parece”.

Não sei. É aquela coisa… Cabeça que não pára. Tenho sido invadida por artigos, livros, conversas sobre a diferença entre homens e mulheres.

Estranho, de facto.

Pergunto: será que os especialistas conhecem o que, até agora, tenho percebido que é tão comummente desconhecido? Essa obra genial, “Excertos dos diários de Adão e Eva”? Está lá tanta coisa, tanto conhecimento, tanto entendimento, menos a receita para os desencantos. Mas, essa, também os peritos não no-la dão.

Só se fossemos seres integralmente racionais e nem cheirássemos emoções.

Importa saber que a discrepância tem causas genéticas? Quem tem mais ou menos neurónios? Que homens são descomplicados e que, para eles, quase tudo é sexo e que mulheres são complexas e amam de maneira diferente?

“Excertos…”. História do primeiro encontro da essência masculina e feminina. História da estranheza do outro. História do primeiro amor do mundo.

Adão, acomodado, ocioso, começa por ter uma imensa raiva daquele novo ser, tão diferente dele. Em vários domingos, apenas escreve: “Sobrevivi.”

Descansa e prefere ver Eva quieta e calada: "Seria um espectáculo repousante (...) até poderia sentir prazer em olhar para ela."

Eva, espontânea, menina, entusiasta, alegre e deslumbrada, não pára. Quer conhecer o que a rodeia, entender, dar sentido e significado às coisas, melhorar e embelezar o cenário em que vive.

Quem, filhas de Eva, não se revê?

É a primeira a ceder: "Não é pela esperteza que o amo, não é de certeza. (...) Ele é autodidacta e até conhece uma série de coisas ainda que elas não sejam como ele as vê (...) Se ele fosse dor, eu amá-lo-ia. Se ele fosse um destroço, eu amá-lo-ia (...) creio que o amo simplesmente porque ele é meu e é masculino." Predestinação feminina. “Eu amo-o com toda a força da minha natureza apaixonada e isto, creio, é próprio da minha juventude e do meu sexo”.

Não abandona o Paraíso por tentação. Apenas, e só, porque vê o seu Adão triste e desmotivado. Quer redimi-lo. Pretende oferecer-lhe a felicidade – talvez fora dos horizontes daquelas paragens.

Quem, filhas de Eva, não se revê?

Adão enviúva e a história de amor termina com um belíssimo epitáfio para a sua mulher: “Onde quer que ela estivesse era o Éden”.

Esquecera, há muito, o que sentira, pensara e escrevera: “Este novo ser de cabelo longo é um valente empecilho.”

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ah, pois é... E então?

A jovem, decepcionada e carente, queixava-se.

- Os homens não prestam para nada. Hei-de ficar solteira a vida toda, vai ver.

A mãe, bracarense de gema, recorrendo, convicta e determinada, à sabedoria popular, não a deixou sem resposta.

- Filha, não te esqueças: cada tacho tem sempre uma tampa!

Ironizou.

- Oh, mãe, só pode estar a brincar comigo. E então aquela panela que não tem tampa porque não sabemos onde ela está metida?

Passaram vinte anos. A mãe morreu. A jovem transformou-se numa mulher de garra. Vive só - não encontrou companheiro.

Cozinha porque adora fazê-lo e a panela continua a existir e a ser utilizada.

A tampa, porém, mantém-se em local incerto.


sábado, 24 de abril de 2010

As palavras dos outros...

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.


José Carlos Ary dos Santos


(Para uma Amiga, que tanto ama esta letra. Para que nunca te esqueças que nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto. Desejo muito que encontres o que procuras)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

... Interlúdio...




Céu de Santo Amaro
Maria Bethânia
Tempo

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor

Nos invadiu...

Com ela veio a paz, toda beleza de sentir

Que para sempre uma estrela vai dizer

Simplesmente amo você...


Meu amor...
Vou lhe dizer

Quero você

Com a alegria de um pássaro

Em busca de outro verão


Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti

Eu me coloco em tuas mãos

Pra sentir todo o carinho que sonhei

Nós somos rainha e rei


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão

Do universo em nós

A força desse amor nos invadiu...

Então...

Veio a certeza de amar você...


(Composição: Johann Sebastian Bach / Arranjo: Flávio Venturini / Letra: Caetano Veloso)

Para nós, Maria Bethânia é uma das maiores intérpretes de música ligeira. Aliás, foi ela que nos inspirou, com as palavras de Luíz Gonzaga, a apelidarmo-nos de Boiadeiras.

No “Céu de Santo Amaro”, Bethânia, que é uma apaixonada por poesia, escolheu os mais belos, conhecidos e ditos versos de Vinicius de Moraes: “Soneto de Fidelidade”. Dois génios.



sexta-feira, 16 de abril de 2010

O poder da lógica

Sentada ao lado direito do patriarca, aguardou que o prato lhe fosse posto à frente.

- Bô, a xôpa tem uma môca.

A mãe, convidada, engoliu a sua vertente doentiamente asséptica e torceu as mãos no colo, pensando: "minha rica filha".

- Não tem nada - disse o avô. - É salsa.

- Nhão é, nhão, Bô. É uma môca.

Com a colher, o avô empurrou o insecto, definitivamente afogado em creme de cenoura, para a beira do prato.

- É salsa! Pronto, assim já não comes.

- Oh, Bô. Mas é uma môca.

- Já te disse que é salsa!

A criança ficou calada durante uns segundos. O olhar recaía, vez sim, vez não, no prato e no seu opositor.

- 'Tá bem. É xalxa mas tem perninhas...

E foi assim, com sopa, moscas e mentiras, que surgiu a assertividade.

(...para ti, Ana, que tantas vezes tens sido uma segunda mãe para mim e raramente dou o valor...)

terça-feira, 13 de abril de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Carta aberta aos sapos…

(… em especial para os que não se revirem nela; muito provavelmente estas palavras são para eles…)

Parem! Deixem-se dessas coisas, caramba. Até me apetece bater o pé qual miúda pequena. Não há pachorra, bolas. Parecem atrasados mentais. E o pior é que gostam de o ser e pensam que não o são. Uns dão à sola e depois dizem que os afectos eram frágeis e vulneráveis. Mas o que é isto? Alguém me explica? Nem os próprios, claro – português da treta; melhor, palavras empandeiradas como quem fala com sérvios. Outros, que não aturam problemas emocionais alheios porque, neles, andam às voltas que nem cães bêbados. Outros ainda, porque não há tempo, têm uma vida muito agitada e com grandes responsabilidades sociais e, no fim, acabamos por descobrir que são impotentes e que têm um medo insano do fiasco do desempenho que nunca terão. Mas há mais: os que não deixam as mulheres porque, pobres, são esquizofrénicas, bipolares, têm unhas encravadas e não aguentariam viver sem o seu desamor ou porque a profissão, alegadamente religiosa, não lhes permite compromissos – namoros, só entre quatro paredes e no meio de grande sigilo; vimos a saber que há mais dez ou doze dilectas mas o que é isto comparado com as inconsistências do Vaticano...? –, ou os que não querem partilhar, porque não!, mas falam da separação, da mulher com cancro, da ex-namorada que lhes deu com os pés, do desemprego e da injustiça que é este mundo, da avó, das lambadas, das irmãs, da depressão, das amnésias temporárias, … Estes últimos são uns verdadeiros génios: descobriram o relacionamento unívoco.

Parem! Não se aguenta! Fogo.

Olhem, nada tenho contra a ficção – muito pelo contrário. Ler tem sido uma das minhas grandes paixões. Mas pode ser, de facto, um instrumento muito perigoso. Em especial, a literatura infantil. Nós, mulheres, crescemos a acreditar que, com um beijo, o sapo se transforma em príncipe. Ou seja, integramos que, por muito mal ou dessintónicas que as situações estejam entre duas pessoas, elas podem melhorar e que o outro se modifica por nós, lindas e irresistíveis princesas.

Pior de tudo: não nos prepara para encontrarmos um príncipe que, afinal, se revela um sapo! O mais frequente. No princípio, a sedução e a doçura e as palavras gentis. Depois, os grandes nadas: já não se levantam para cumprimentar, olham em volta antes de beijar, chamam-nos perturbadas porque lhes desejamos, em situações menos agradáveis, “boa sorte!”, dilatam o tempo entre os contactos. Até que se vão. Com explicação pouco esclarecida ou nem sequer. Ou então somos nós que, já não aguentando tanto desvairo, deslargamo-nos deles querendo clarificar o afastamento. Ah, ilusão pura e dura! Os homens, seres de Marte, só dão importância ao bidubidu: futebol, bejecas, quecas marcadas no cinto, ao seu próprio trabalho e ao seu próprio bem-estar. Qu'é lá isso, ó vénus desnorteadas e complicadas? Tristes - eles que nem sabem onde é o norte ou o sul, este ou oeste...

Ah! Permitam-me a imodéstia. Resta-me uma satisfação: tudo o que viram em mim, tudo o que ouviram de mim e tudo o que leram de mim corresponde exactamente ao que sou. O que deve ser surpreendente. Não creio que estejam habituados a honestidades, deles e dos outros.

Se ainda continuam a ler esta carta, chamo a atenção para um facto simples: não sou caso único – há muito boa gente que vive da verdade e na verdade.

Não param nunca para pensar no mal que fazem a estas mulheres? Não se importam? É uma questão de maneira de ser ou é uma questão adquirida? E se um dia lhes tocar a eles, aos sapos? Se um dia – imaginem – acreditarem no que uma mulher lhes diz e demonstra, se gostarem e se se prenderem a esse mimo e ela os abandonar sem palavra ou gesto? Será que perceberão que a vida lhes está a devolver o que têm dado e que não terão razões para se indignar com ela? Acredito que temos que ter a sabedoria suficiente para aprender e crescer com as experiências. Talvez se viverem e sentirem o que fazem viver e sentir, talvez aprendam a ser menos sapos, talvez aprendam a ser um pouquinho mais príncipes.

Deixo uma sugestão: agarrem nessa argúcia que consideram ter, vejam bem quem têm à frente e façam uma triagem. Escolham, como vítimas das palavras sem alma e da sedução de objectivo dúbio, uma mulher que seja uma rã.

Quanto às outras… Por favor, poupem-nas do vosso comportamento arbitrário. Por elas, por essas outras, caso não consigam nunca ser genuinamente civilizados, bem formados e decentes, peço-vos que não lhes liguem sequer. É que podem aumentar-lhes as fragilidades. E, apesar de tudo, não acredito que isso vos acrescente alguma coisa, ou que vos faça sentir mais másculos, ou ainda que vos torne mais realizados como predadores. Fazer mal nunca deu felicidade a ninguém.

Há atitudes que não se tomam porque nos caracterizam, porque nos definem e porque marcam o nosso caminho de forma irreparável. Acima de tudo, toda a palavra e todo o gesto negativos possuem a força e o poder de provocar uma reacção e têm um efeito de boomerang. E acabam por nos prejudicar muito mais a nós do que aos outros.

Fisicamente, tenho um grave problema de postura. Mas a coluna está cá, caros sapos: material e moralmente. E, comparando-me convosco, garanto-vos que é um privilégio pelo bem-estar que provoca, pelo facto de nos sentirmos gente.

Trazem, à nossa vida, assombro, decepção, desconfiança e tristeza.

Perceberão que vos estou a proporcionar motivos para reflectir e, reflectindo, crescer e melhorar?

Perceberão que tive o cuidado de evitar dizer o que sinto por vós?

Perceberão que o fiz por respeito? E perceberão o que isso é e porque razão esse respeito existe dentro de mim?

Perceberão que, apesar do desamparo que nos oferecem, estou a dar-vos um presente? Justamente a vós, que são eternos e irremediáveis batráquios?

Terão lido esta carta até aqui? E, se leram, compreenderão algum dia a morte lenta e intensa de uma mulher que beijou um príncipe que, de repente, se transformou num sapo?


Homenagem aos Pais...

Querido filho,

O dia em que este velho não for o mesmo, tem paciência e, por favor, compreende-me.

Quando deixar cair comida sobre a minha camisa e me esquecer como se apertam os sapatos, tem paciência comigo e lembra-te das horas que passei a ensinar-te a fazer as mesmas coisas.

Se, ao conversares comigo, eu repetir as mesmas histórias, que sabes como terminam, não me interrompas e ouve. Quando eras pequeno, para que dormisses, tive que te contar milhares de vezes a mesma história até que fechasses os olhinhos.

Quando estivermos reunidos e, sem querer, fizer as minhas necessidades, não fiques com vergonha. Compreende que não tenho culpa, pois já não as consigo controlar. Pensa nas vezes em que, pacientemente, mudei a tua roupa para que estivesses sempre limpinho e cheiroso.

Não ralhes se eu não quiser tomar banho. Sê paciente comigo. Lembra-te dos momentos em que te persegui e os mil pretextos que inventava para te convencer a tomar banho.

Quando vires a minha inutilidade e ignorância face às novas tecnologias que já não consigo entender, suplico-te que me dês o tempo necessário e que não me humilhes com um sorriso sarcástico.

Lembra-te de que fui eu quem te ensinou muitas coisas. Comer, vestir e enfrentar a vida tão bem como o fazes hoje. Não te esqueças de que tudo isto é resultado do meu esforço e da minha perseverança.

Se, por acaso, enquanto conversarmos, eu me esquecer do que estávamos a dizer, tem paciência e ajuda-me a lembrar. Talvez a única coisa importante para mim naquele momento seja o facto de te ver perto de mim, dando-me atenção, e não o assunto da conversa.

Se alguma vez eu não quiser comer, insiste com carinho. Assim, tal qual como fiz contigo. Compreende que, com o tempo, não terei dentes fortes nem agilidade para engolir.

E quando as minhas as pernas falharem por estarem cansadas, e eu já não conseguir equilibrar-me, dá-me a tua mão, com ternura, para me apoiar, como eu fiz quando tu começaste a caminhar com tuas perninhas tão frágeis.

E se algum dia me ouvires dizer que não já quero viver, não te aborreças comigo. Um dia entenderás que isto nada tem a ver com teu carinho ou com o quanto te amo. Compreende que é difícil ver a vida a abandonar lentamente o meu corpo, e que é duro admitir que já não tenho vigor para correr ao teu lado ou para te segurar nos meus braços, como dantes.

Sempre quis o melhor para ti e sempre me esforcei para que o teu mundo fosse mais confortável, mais belo, mais florido. E quando partir, podes estar certo de que construirei para ti outra rota noutro tempo, mas estarei sempre contigo e zelando por ti.

Não te sintas triste ou impotente por me ver assim. Não me olhes com cara de dó. Dá-me apenas o teu coração, compreende-me e apoia-me como fiz quando começaste a viver. Isso dar-me-á força e muita coragem.

Da mesma maneira que te acompanhei no início da tua jornada, peço-te que me acompanhes para terminar a minha.

Trata-me com amor e paciência e eu devolver-te-ei sorrisos e gratidão, com o imenso amor que sempre tive por ti.

Atenciosamente,

O teu Pai.

(Recebido por mail, desconhecendo-se a autoria. Adaptado do brasileiro.)

domingo, 11 de abril de 2010

... Interlúdio...



Pedro Abrunhosa
'Intimidade'
Ao vivo na Casa da Música


(... Pedro Abrunhosa empresta a voz a palavras de outros... 1ª série)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Desacertos 2

- Júlio?

- Olá, amiga. Que bom ouvir-te. Estás bem?

Que chatice. A tecnologia vai retirando a possibilidade de fazermos surpresas.

- Acho que sim. E tu?

- Achas...? O que se passa?

- Ah, nada de especial. A rotina de sempre. Acaba por desmotivar, não é?

- Pois é, tens razão. Sinto o mesmo. Então, o que é que queres?

Cada vez mais pragmáticos e incisivos. Que chatice.

- Precisava desesperadamente de ouvir uma voz amiga e afectuosa. Tenho tido alguns problemas e...

- Bom, nem me digas nada. Não imaginas o que tem sido a minha vida...

- É?

- Olha, estive internado, há um mês, com uma mononucleose. Ainda não me sinto bem mas já estou a trabalhar. Sabes como é...!? Não dá para estarmos de atestado. Mais a mais, a Clara está de novo desempregada...

- O quê?

- É verdade. Nem dá para acreditar, não é? Tive que ‘cortar’ numa série de coisas. O que mais me custa é não poder dar aos miúdos a qualidade de vida a que estavam habituados...

- Meu Deus... Não há nada que não te aconteça, rapaz.

- Ah, mas isto é só uma pequena parte.

- Uma pequena parte...?

Falou-me da insuficiência cardíaca da mãe, do AVC do sogro e do cancro do pâncreas que descobriram na sogra. Com tamanha disfunção, as crianças ficaram com problemas comportamentais – todas na pedopsiquiatria. Uma, com perturbações do sono, outra, com incontinência urinária e, a terceira, com tiques estranhíssimos que “nos dão cabo dos nervos”.

- Acabo por andar aos berros o tempo em que estou em casa. A Clara... bom, completamente insuportável. Claro que já estamos com problemas no nosso casamento.

- Querido, nem sei o que dizer... Mas como é que é possível?

- Não sei. Não sei. E tu? O que é que me querias dizer?

- Nada, amigo, absolutamente nada. Não te esqueças: se precisares de alguma coisa, estou aqui. Mas, olha, no meio disto tudo, como é que te estás a aguentar?

- Só me apetece dar um tiro nos cornos...

- Júlio, por amor de Deus, isso resolvia o quê?

Atropela-me.

- ... Não tenho paciência para nada. Ora desatino, ora choro. Sinto-me com o mundo às costas. E o meu médico a querer dar-me antidepressivos, vê lá tu.

- E então? Qual é o problema?

- Qual é o problema? – grita. – Eu sou mais forte que qualquer comprimido ou não me conheces?

- Ah, claro.

Despedimo-nos assim que consegui.

Sentei-me, extenuada. Perante tantos problemas e necessidade de partilha nada havia para dizer.

Afinal, eu apenas tinha nas mãos e na alma a sentença de seis meses de vida.


Mas, afinal, o que é que é isto, Amélia?

Deu-me para isto, que se há-de fazer? Procurar nomes de amigos e conhecidos na net. Nada de especial nem por motivo nenhum. Curiosidade infantil.

Até o meu analisei.

Referida, mais do que uma vez, num blogue de um utente dos meus tempos da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. O contacto era feito por e-mail ou pelo telefone. Viemos a conhecer-nos. Mal-entendidos resolvidos mas o texto continuou lá. Tudo bem.

(Engraçado: uma pessoa que não conhecia entrou em juízos de valor completamente desadequados; da primeira vez que esteve comigo, esclarecemo-nos e o discurso virou. Outros, que supostamente me conhecem, não querem nem ouvir falar de explicações. Ai, o ser humano…)

Eis que, de repente, o encontro. Não sei se está morto ou vivo e os assuntos não revelam a dúvida. Críticas a livros publicados. Uma fotografia que, segundo me parece, deve ter bastante tempo… e pouco mais.

Há muitos anos atrás, mataram-no antes do tempo. Movi céus e terra para saber a verdade até que, um dia, recebi um telefonema: “Olá, daqui fala o morto…”.

Explico por que quis saber. A mágoa era tanta que, acreditando eu na vida após a morte, não poderia, caso tivesse morrido, continuar a sentir o que sentia. Não seria justo, em meu entender, o ressentimento que tinha porque em nada o ajudaria na sua caminhada. Teria que resolver o assunto – a bem ou a mal.

Hoje, a recordação é-me indiferente.

Ele sempre pensou que morreria cedo. O pai, pessoa bem formada e introvertida, características que o filho não herdou de todo (nem aquela altura enorme, tão-pouco o ar de Humphrey Bogart. Igual à mãe, com feições muito judaicas), teve várias tromboses. A primeira aos 53 anos que o deixou acamado até ao fim.

Acabei por pensar o mesmo. Não pelas mesmas razões, mas porque ele é tão diabolicamente emotivo e intenso que nunca acreditei que qualquer coração aguentasse, durante muito tempo, tantas tempestades.

Bom, caso esteja vivo, tem 75 anos. E certamente enxertado em corno de cabra.

De qualquer forma, paz à (na) sua alma.

Prometo que darei cabo desta curiosidade de saber se tenho conhecidos internéticos. Até os zés-ninguéns, como eu, aparecem como figuras de primeira…

Que chachada!


quinta-feira, 8 de abril de 2010

... Interlúdio...



You're Not From Here
Lara Fabian


I don't know what is going on
You turn around and touch my heart
A silent moment speaks the truth

Something has happened all at once

It should have scared me in advance

But I was falling in those eyes of yours

And so

Fear was gone

I knew there was nothing else

I'd ever want


I know you

You're not from here

I've waited for you to appear

To take my breath away

And make me weep

You're not from here

Not from this here and now

Just a touch of yours

And I fly... and I fly... and I fly


I can't get used to missing you

If this is how it's gotta be

I need an angel to watch over me

No one can hold the hands of time

But I can hold you in my mind

Over and over like a melody

For now

I'll stand still

For now

I'll be filled by the memory of your skin


I know you

You're not from here

You don't belong to lies and tears

The greatness of your soul

Makes me weep

You're not from here

Not from this here and now

Just a touch of yours

And I fly... and I fly... and I fly


Tudo depende da posição...

Fazê-lo parado fortalece a coluna; de barriga para baixo estimula a circulação do sangue; de barriga para cima é mais agradável; fazê-lo sozinho é enriquecedor, mas egoísta; em grupo pode ser divertido; no W.C. é muito digestivo; no automóvel pode ser perigoso…

Fazê-lo com frequência desenvolve a imaginação; a dois, enriquece o conhecimento; de joelhos, torna-se doloroso…

Enfim... sobre a mesa ou sobre a secretária, antes de comer ou à sobremesa, sobre a cama ou numa rede, despidos ou vestidos, na relva ou sobre o tapete, com música ou em silêncio, entre lençóis ou no roupeiro:

Fazê-lo é sempre um acto de amor e de enriquecimento.

Não importa a idade, nem a raça, nem o credo, nem o sexo, nem a posição económica....

O que importa é que…

Ler é um prazer!!!

(Recebi por um mail enviado pela minha irmã mas desconheço a autoria.)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Porquê?

Isto de estarmos vivos é muito complicado, já dizia o poeta e escritor Manuel da Fonseca.

Interrogo-me sobre o porquê desta verdade.

Será que a vida é complicada? Ou seremos nós? Ou ambos?

Resolvi fazer jus ao meu nome: Ponto de Interrogação. De facto, só quando a Vírgula e eu demos à luz este abençoado blogue, percebi que sou gente de muitas interrogações. Porquê? Porquê? Porquê? – pergunta a minha vertente infantil. Para quê? Para quê? Para quê? – pergunta a minha faceta de gente crescida.

A minha complicação começa logo aqui: na palavra ‘complicado’. Considero-me uma pessoa de conceitos. Dou uma importância primordial às palavras. Há coisas que digo apenas a algumas pessoas e que meço ao milímetro pois, numa palavra aparentemente simples, há, para mim e a partir do momento em que a profiro, um universo de sentimentos que vêm directamente - sem passar pela casa de partida - do meu coração, da minha alma, das minhas entranhas. Não tenho o hábito de ‘esbanjar’ sentimentos, emoções e – lá está – palavras. Só digo mesmo o que sinto quando sinto. Quando gosto, gosto e quando não gosto, não gosto e isso dá-me alguns dissabores. O que quero dizer é que não faço favores a ninguém e, bem ou mal, sou o mais transparente possível.

O que significa, por isso e para mim, ser(-se) ‘complicado’? Engraçado… Não tenho a certeza de como responder a esta questão. É-me mais fácil recorrer ao que a despoletou.

Estou a falar do relacionamento entre seres humanos. Porque se observarmos a natureza e o seu curso percebemos que, apesar da complexidade que é imputada a cada ser vivo e às teias que tecem cada uma dessas existências tão significativas, existe uma simplicidade maravilhosa, por vezes enfadonha mas sempre renovável.

Pergunto-me, então, porque é que o relacionamento entre seres alegadamente racionais é tão complicado? É óbvio que cada um de nós é único. Mas temos parecenças e a capacidade inata – à semelhança de tudo o que é vivo - de nos adaptar e moldar. Há, no entanto, algo que nos separa dos outros seres: o facto de todos nós, sem excepção, almejarmos alcançar um estado de amor puro e divino. A nossa necessidade de dar mas também de receber afecto, carinho, ternura. Na verdade, sou até capaz de acreditar que as maiores atrocidades que o ser humano comete são, para além de outras coisas, derivadas da ausência de amor – amor-próprio e amor pelos outros. Somos capazes de envidar esforços para ‘amar’ quem sabemos não merecer da nossa parte a mínima consideração, mas não o fazemos por aqueles que, não só apresentam vertentes que se encaixam perfeitamente nos nossos valores e princípios, como manifestam a sua disponibilidade e a sua presença e, sobretudo, a sua capacidade de amar.

Não me quero alongar. Ficará para segundas núpcias. Lamento profundamente que, sendo o que todos nós andamos à procura, estejamos tão distantes uns dos outros por questões meramente secundárias e, em muitos casos, fúteis e mediáticas. Passamos a maior parte do nosso tempo a ver a vida a passar-nos ao lado e a escorregar-nos por entre as mãos quando, afinal, é libertador e renovador dizer, por palavras e/ou gestos, amo-te! a um familiar, amigo, companheiro, amante, irmão…